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Minúcias: nuances da dívida e do risco do Sport servem como modelo para o Nordeste

Foto: Wiliams Aguiar/Sport Club do Recife

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A campanha de permanência do Sport Club do Recife na Série A não foi tratada como um feito heroico à toa. Um clipping do noticiário rubro-negro nos últimos três anos capturará, em sua maioria, notícias concentradas na crise financeira e no racha político da instituição, fortes ofensores aos objetivos esportivos do time principal de futebol. Entre os assuntos recorrentes no período, a dívida leonina com o Sporting de Lisboa é sem dúvidas um dos mais constantes.

O passivo foi adquirido em 2017, quando o Sport ainda aparentava trilhar uma senda de crescimento pioneira no Nordeste. Foram cinco temporadas ininterruptas na Série A do Campeonato Brasileiro, recorte no qual nomes de grande quilate vestiram a camisa rubro-negra, com maior peso para o “embaixador Diego Souza”; mas foi com outro nome estelar que o futuro do Sport acabou comprometido.

André foi contratado pela primeira vez em 2015, num empréstimo firmado junto ao Atlético/MG. Foram 34 jogos e 14 gols marcados, uma contribuição relevante para a campanha na Série A que, nos moldes atuais, teria resultado numa classificação à Libertadores de 2016. Partiu deixando saudades, que viriam a ser aliviadas em 2017 com a compra dos direitos econômicos do jogador junto aos portugueses – uma operação estimada em quase 1 milhão de euros. Até hoje não transferidos.

O calote dado reverbera em dificuldades aos atuais gestores do clube, e é um ponto de preocupação para os candidatos da turbulenta eleição que teima em não acontecer. Sem acordo com o Sporting, o Sport segue impedido de registrar jogadores num momento crítico da temporada 2021. O confronto com o Juazeirense pela 1ª fase da Copa do Brasil se aproxima, havendo interesse máximo na classificação dado o caráter financeiro assumido pela Copa nos últimos anos. A momentânea impossibilidade de contar com força máxima no duelo com os baianos diminui as (boas) chances de classificação leoninas. Uma dívida milionária afasta o Sport de uma classificação de milhões.

Tais preocupações já são de conhecimento do torcedor rubro-negro. Enquanto a cúpula de cartolas busca soluções para resolver a questão, convido o leitor (quer seja ou não um torcedor do Sport) a explorar a mentalidade responsável pelo momento penoso vivido pelo Sport Club do Recife, que já vigorou em outros clubes da região Nordeste (de fato, ainda vigora em alguns).

A natureza contraditória da indústria do futebol é o ponto de partida para compreensão da mentalidade citada. Ainda que clubes tenham faturamentos milionários, não há procura pelo lucro na maioria dos times de futebol. O foco está na conquista de resultados – títulos, acessos e classificações. Mas não há como se alcançar resultados, de maneira consistente, sem orçamentos relevantes. Há um determinismo econômico cada vez mais consolidado no meio futebolístico, maximizando a importância de saber associar a prudente gestão financeira com a obtenção dos resultados almejados no campo.

Essa associação demanda uma compreensão detalhada da indústria em que se ocupa, bem como do lugar específico ocupado na indústria. Imaginemos um tradicional clube nordestino que dispute a Série D, algo que já aconteceu com CSA (Alagoas), Santa Cruz (Pernambuco) e que é realidade contemporânea para os potiguares ABC e América/RN. Em Condições Normais de Temperatura e Pressão (sem pandemia, sem restrições de público nos estádios), um acesso da Série D para a C representa alguma evolução orçamentária: a primeira fase da Série C é composta por 18 partidas, 4 a mais de que na fase correspondente da Série D. A vitrine para atletas, ainda que deficitária, também cresce, pois nos últimos anos a terceira divisão variou do Esporte Interativo para o DAZN como responsáveis pela transmissão de parte das partidas; a Série D é exibida em totalidade, mas através das precárias transmissões do MyCujoo.

Um novo acesso, desta vez da Série C para a B, provoca uma injeção considerável de capital na instituição, pois o montante pago na cota fixa da Série B é de R$ 8 milhões. Se bem aplicada, tal quantia pode tanto provocar uma melhoria estrutural do clube quanto uma qualificação de seu plantel suficiente para uma campanha de segurança, ou, quem sabe, para uma disputa de acesso. O calendário, agora de 38 rodadas, é outro vetor determinante nas contas, tanto considerando os ganhos com bilheteria quanto uma maior adimplência do quadro social.

O terceiro acesso, se conquistado, é o que provoca violento crescimento nas finanças da entidade. A cota cresce para algumas dezenas de milhões (R$), os atletas são valorizados, a associação ocorre em massa… E após uma série de 3 acessos e de uma completa reestruturação financeira, é enfrentada uma estagnação no crescimento.

É difícil para um clube do Nordeste obter classificação para a Copa Libertadores da América. Através do Campeonato Brasileiro de pontos corridos, tal façanha nunca ocorreu (embora as campanhas do Vitória de 2013, 5º lugar com 59 pontos, e do Sport em 2015, 6º lugar com 59 pontos, se replicadas na distribuição atual de vagas, fossem suficientes). O título é utopia ainda maior; a disputa tem sido concentrada, nos últimos 5 anos, aos clubes mais ‘dinamitados’ financeiramente: Flamengo e Palmeiras, donos de quatro das cinco últimas taças. Neste contexto, as pretensões acabam restritas ao objetivo declarado de permanência e, somente quando alcançada a pontuação de segurança, a procura por voos mais altos.

Como, então, saciar o insaciável apetite do torcedor por mais? Como conter a ânsia dos dirigentes por conquistas durante seu período à frente da instituição? É difícil competir contra o Flamengo, um time suficientemente rico para ter Pedro como opção no banco de reservas, ou mesmo contra o novato mas opulente RB Bragantino.

Alguns clubes do Nordeste tem atravessado um seguro crescimento nos últimos 5 anos, produto de práticas administrativas modernas e zelo pela saúde financeira. Ceará, Fortaleza e Bahia hoje ocupam uma situação de mercado que supera às de Cruzeiro, Botafogo e Vasco, todos na Série B, e que rivaliza com a do Fluminense. A renovação contratual de Vinicius (Vina) foi uma vitória mercadológica do Ceará; mas como diferenciar o momento destes clubes daquele vivido pelo Sport no período da compra de André?

Obter jogadores qualificados para obter performance segura na Série A custa caro. A maior parte dos atletas cobiçados pelos torcedores e dirigentes dos times do Nordeste ainda habita um nicho de mercado pouco acessível. O Sport forçou a entrada nesse nicho para adquirir André, e hoje seu credor inviabiliza a inscrição do mais medíocre dos jogadores. É paradoxal pertencer ao pelotão de elite do futebol nacional, pois o crescimento atinge uma estagnação de difícil evolução.

No mundo dos negócios, essa é uma métrica conhecida como CAC – Custo de Aquisição de Cliente. Uma empresa em estágio embrionário pode investir R$ 100,00 para conquistar seus 1.000 primeiros clientes; os próximos 10.000 demandarão um esforço de venda estimado em R$ 200,00/cliente, e para os 100.000 que se seguem serão necessários um investimento médio de R$ 800,00/cliente. O custo sobe quando se tenta cativar um público mais amplo.

Isso se aplica na indústria futebolística: o custo de crescimento sobe mediante o nível do desafio. Mais importante, a proporção do orçamento do futebol profissional tende a subir. E os clubes ainda engatinham não só nos processos de redução de custos, mas primordialmente na procura por fazer mais com menos dinheiro.

É preciso destrinchar: o uso de menos dinheiro não é uma necessidade, mas sim uma forma de tracionar a instituição. Temporadas consecutivas na Série A tendem a propiciar um crescimento sustentável, e as exceções para esta regra são os clubes que tentam dar passos maiores que as pernas – tal como fez o Sport no caso André. Mas é possível fazer mais com menos em função das deficiências mercadológicas que ainda são comuns.

Clubes de Série A concorrem por atletas de talento percebido e, portanto, precificado. Os altos valores empregados pelo Sport na aquisição de André derivam da capacidade técnica conhecida do jogador, algo que é medido em valor financeiro. Se não há um alicerce financeiro que permita ao clube construir um plantel de “Andrés”, a forma de equilibrar o investimento adequado e o resultado colhido é com pesquisa – encontrar talentos não percebidos e, por consequência, ainda não precificados.

Quando o Ceará trouxe Cleber, atacante do Barbalha sem nenhum predicado evidenciado, ele antecipou o valor futuro do jogador numa pechincha. O sucesso estrondoso que Cleber teve na reta final da Copa do Nordeste e no início da Série A multiplicaram seu valor percebido, e em agosto de 2020 o Grêmio efetuou uma proposta de R$ 15 milhões pelo atleta. A economia alcançada com Cleber permitiu ao Ceará realizar investimentos em outras frentes. Mas não é fácil encontrar jogadores com capacidade de entrega elevada ainda não percebidos-precificados, e fazê-lo demanda investimento dos clubes em setores de inteligência que estejam exaustivamente mapeando o mercado, garimpando oportunidades, medindo riscos e indicando negócios favoráveis.

Como o mercado está tomado por atletas ‘medianos’, os clubes que encontram diferenciação na percepção de características adequadas obterão um retorno mais rápido. Se os atletas se assemelham tecnicamente, é no encaixe da característica do atleta com o modelo de jogo do treinador que se dinamitará a performance coletiva. Algo limitado tanto pela comum ignorância dos clubes à característica como componente vital quanto pela elevada rotatividade de treinadores não apenas no futebol nordestino, mas brasileiro.

Um outro agente fomentador de economias são os atletas de base. Ainda há um preconceito natural por parte dos torcedores com os chamados ‘pratas-da-casa’, pois não há muita expectativa de que esses jogadores sejam tecnicamente diferenciados. Mas eles não precisam ser: o mercado, como um todo, é carente dos ‘diferentes’. Há uma oferta finita de bons jogadores, o que faz com que a maioria dos jogadores acessíveis a clubes de Série A esteja nivelada numa ‘média’ de desempenho. O atleta egresso da base precisa estar compatível, tecnicamente, com essa média, pois seu custo ainda é menor do que os atletas já maturados e precificados. É com a economia desses atletas de base que integram o elenco profissional que se criam condições para buscar os diferentes.

A interpretação errada dos atores do mercado e de seus papéis é o que motiva a ‘quebra’ no crescimento gradativo que acaba sendo a única solução para clubes nordestinos na primeira divisão. Há uma limitação da indústria que limita a possibilidade de crescimento, e sem esse entendimento, os clubes estarão suscetíveis a interpretarem de maneira equivocada seus momentos, desenvolvendo expectativas irreais e assumindo compromissos que não poderão honrar.

O maior ativo que uma equipe do Nordeste pode ter, hoje, é uma cultura de análise institucional, independente aos profissionais que trabalhem no clube. Medindo desempenho com KPIs alinhados aos objetivos esportivos e econômicos do clube, antecipando o mercado com constância e conciliando necessidades do modelo de jogo com características particulares, os clubes pavimentarão um caminho de crescimento sustentável.

O caso André é digno de atenção não apenas para os que fazem e pretendem fazer o Sport Club do Recife, como também para os vizinhos que estão suscetíveis a repetir o erro do primo pernambucano.

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1 comentário

1 comentário

  1. Mario

    3 de março de 2021 a 11:21

    Que análise perfeita. Parabéns! Essa é uma cartilha já seguida pela boa gestão do Ceará, mas o exemplo é perfeito para todos. É importante também não cair em tentação. Parte da imprensa e da torcida não tem limites nas críticas e expectativas, cabe ao gestor tomar medidas, às vezes, impopulares para preservar um crescimento sustentável e contínuo, como faz Robinson de Castro no Vozão. Não é fácil, mas é a saída. Não há mais espaço para populismo barato e amadorismo.

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