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Minúcias: o declínio do futebol pernambucano em perguntas

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O momento do futebol em Pernambuco, há tempos, deixou de ser ‘delicado’. O estado, tradicional líder competitivo da região, vê não apenas o declínio que compreende o ‘Trio de Ferro’ e vários clubes interioranos, mas também o crescimento de praças concorrentes, tais como Ceará e Alagoas.

2021 consolida essa tendência acentuada de queda. As vexatórias campanhas de Sport e Santa Cruz na Copa do Nordeste são tão preocupantes quanto a constante ausência do Náutico do torneio regional. Na Copa do Brasil, competição de ‘monetização’, quedas precoces em sequência. E, no estadual, a insistência do Salgueiro em desistir das competições em 2021 menos de um ano após ser o primeiro campeão estadual fora da RMR evidencia o quão inexpressivo se tornou o Campeonato Pernambucano.

Nos últimos anos, eleições variadas ocorreram nas sedes de Náutico, Sport e Santa Cruz, com candidatos variados apontando correções de rumo supostamente necessárias. Discursos vagos referentes a utilização de base, palavras como ‘critério’ e ‘planejamento’ utilizadas num modelo pronto e sem qualquer fundamentação, raso conhecimento de mercado… Enquanto, individualmente, o Trio de Ferro tenta resolver seus problemas, não houve um único momento em que os clubes tenham se juntado para debater seus gargalos e pensar em soluções compartilhadas; no caminho solitário, percorrem uma senda que tradicionalmente se encerra no misticismo e na repetição de padrões de comportamento vigentes por décadas.

A solução para os clubes, individualmente, não está numa única contratação, nem na troca de treinador. Está na revisão de suas práticas, num estudo de mercado, na constituição de um elaborado plano para agir na indústria do futebol, plantando sementes que darão fruto a médio e longo prazo. Tomemos como exemplo o Santa Cruz: o foco (declarado) maior de todos os candidatos no último pleito foi “obter o acesso”, “sair da Série C”. Uma viagem de 10 anos no tempo mostra que o objetivo não se alterou: em 2011, o Santa Cruz conseguiu, após 3 temporadas no esgoto futebolístico nacional, o acesso na Série D. Dois anos depois, retornou a Série B e, em 2016, regressou a Série A. Dois anos depois estava, mais uma vez, na terceira divisão. Fundamentalmente, o Santa Cruz está onde estava há 10 anos: sem saber como chegou aonde está, com uma vaga ideia de onde quer estar e sem nenhum método desenvolvido para percorrer a jornada. Deixar a Série C é um objetivo importante e necessário, mas se alcançado aleatoriamente, o retorno será questão de tempo.

Os dirigentes dos clubes em Pernambuco, em sua maioria, querem fornecer respostas aos problemas das instituições sem sequer realizarem perguntas. Não há investigação referente aos eventos que consolidaram tanto a derrocada de cada clube quanto o coletivo estado caótico vivido. E, com base em percepções individuais e sem aprofundamento profissional, os gestores eleitos acabam fazendo mais do mesmo e tornando a reversão do cenário apocalíptico cada vez mais difícil.

Obviamente, há uma contribuição substancial da Federação Pernambucana de Futebol neste contexto. A gestão questionável de Evandro Carvalho ao longo de uma década na FPF tem peso na consolidação do ocaso do futebol estadual, mas os clubes não podem terceirizar a responsabilidade de sua saúde financeira e seu desempenho esportivo.

Os problemas dos clubes, separadamente, são tão abundantes que fariam deste texto um verdadeiro dossiê. Para torná-lo mais acessível, este que vos escreve optou por segmentá-lo em diferentes ‘capítulos’, começando pela reflexão contida ao longo deste texto inaugural. As perguntas que vejo como essenciais, sob um prisma coletivo:

  • O crescimento esportivo em outros estados é fruto de um processo pensado ou um evento aleatório? Sem o entendimento da operação da concorrência, falharemos em identificar oportunidades e antecipar erros já cometidos por outros.
  • A derrocada coletiva do futebol pernambucano pode ser associado ao fracasso individual dos clubes individualmente? Isto é, estamos vivendo um efeito dominó, onde os clubes vão se puxando para baixo, ou é coincidência que o momento ruim dos clubes em geral esteja acontecendo simultaneamente?
  • Qual o posicionamento de Pernambuco na indústria do futebol? Não estamos operando numa competição estadual, nem regional e tampouco nacional. Somos um pequeno ecossistema inserido num contexto global e essa assimilação ainda não aconteceu.
  • O que devemos esperar do futebol no interior e como podemos cobrar aquilo que esperamos? O precário Salgueiro assumiu, na última década, um protagonismo que nos anos 2000 se dividiu em clubes como Central, Porto, Ypiranga e Serrano. É possível recuperar uma pluralidade competitiva? É possível associar o esquecido enfraquecimento coletivo no interior ao declínio evidente na capital?

Com base nestas perguntas, ao longo das próximas semanas, estarei semanalmente alimentando este estudo ao longo das próximas 10 semanas, direcionando parte das reflexões feitas aqui para que um diagnóstico minucioso dos problemas do futebol pernambucano seja traçado. Ao longo de 10 textos, espero contribuir de alguma forma com o necessário movimento de reforma para recuperação do futebol estadual.

Até a próxima semana.

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