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AnalistasRodolpho Moreira

Minúcias: tese de investimentos em clubes de futebol

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A reta final do ano de 2014 apresentava ao Fortaleza um desafio considerável. Estagnado na Série C e marcado por desventuras em série, o tricolor precisaria impedir o pentacampeonato estadual do rival Ceará (à época na Série B) munido de recursos menores e uma vitrine mais fraca.

Para combater o favoritismo do rival, o então diretor de futebol do clube, Marcelo Paz, optou por uma estratégia de mercado muito particular: contratar jogadores nascidos no estado cearense e/ou familiarizados com a rivalidade local, que tivessem ciência do peso daquele desafio e contagiassem duradouramente o restante do grupo com o ímpeto pelo seu alcance.

É difícil categorizar a estratégia de Marcelo Paz como uma tese de investimento, essencialmente por sua limitação. Quantos bons jogadores de futebol (suficientemente bons para justificarem o investimento) são oriundos do Ceará? E, sobretudo, quantos caberiam no limitado bolso do Fortaleza?

À época, o expoente esportivo futebolístico do estado talvez fosse o atacante Osvaldo, inviável para os padrões tricolores – após um 2014 com 60 jogos pelo São Paulo, o jogador fora contratado pelo Al-Ahli Jeddah. Percebe-se, então, que na verdade a estratégia elaborada por Marcelo Paz fomentava muito mais uma reserva (ínfima) de mercado do que uma segmentação: jogadores suficientemente bons nascidos no estado do Ceará e viáveis para o momento do Fortaleza.

Mesmo com a limitação amostral considerável, Marcelo Paz encontrou um número surpreendente de jogadores para reforçar o plantel, todos dentro do setor de meio campo:
– Dudu Cearense e Pio, volantes, ambos nascidos em Fortaleza
– o curinga Everton, que ao longo da carreira atuou como lateral, volante, meia e ponta, natural de Maranguape
– e Daniel Sobralense, meia, oriundo, como é de se esperar, de Sobral

Se a movimentação de mercado foi decisiva ou não para o título tricolor, é difícil dizer. Aspectos tangíveis como o gol de Daniel Sobralense no jogo do título podem ser apontados, mas somente forçosamente podem ser associados ao local de nascimento do jogador. A estratégia de Marcelo Paz foi meramente baseada no componente emocional – encontrar jogadores capazes de transmitir ao grupo o sentimento local e tornar esse sentimento um diferencial competitivo. Ainda que sem dúvidas o dirigente tenha procurado por jogadores qualificados, não pareceu haver filtros associados à característica técnica e ao repertório tático desses atletas.

Ainda assim, esse exemplo distante do Fortaleza 2015 é interessante por dois motivos.

O primeiro é a evolução conjunta tanto do clube, que do ostracismo na terceira divisão nacional é agora a sensação da região Nordeste com uma histórica classificação à Libertadores, quanto do dirigente Marcelo Paz, estabilizado como um presidente com pilares de mercado bem definidos – continuidade de treinadores e busca por jogadores capazes de exercer diversas funções no campo, por exemplo.

O segundo é aplicar parte do racional de Marcelo Paz para montar o Fortaleza 2015 no mercado atual, de forma a entender se existem teses de investimento para formação de elenco e se sim, quais são elas.

O viés emocional, balizador da atuação de Paz no mercado de 2015, sem dúvidas deve ser considerado. Com os jogadores cada vez mais expostos em suas vidas através das redes sociais e calendários que exigem rápida recuperação psicológica entre um jogo e outro, pensar a dosagem do elenco com líderes de grupo que possam auxiliar os companheiros é pré-requisito. O porém é que os principais indicadores para nortear uma contratação seguem sendo técnicos, ainda que devam variar de clube para clube com base no modelo de jogo vigente ou a ser implementado.

Com o fim das férias e o início da pré-temporada, é possível dizer que seu time já possui um modelo de jogo implementado a ser consolidado nesta pré-temporada? Ou ao menos sabe que modelo de jogo quer desenvolver ao longo de 2022? Se sim, a atividade de mercado (escolha do treinador, renovações, contratações, uso previsto da base) foi/está sendo condizente com as necessidades do modelo?

O diagnóstico de tais necessidades é particular. Para modelos de jogo reativos, os Key Performance Indicators (KPIs) do modelo irão diferir radicalmente de modelos propositivos, havendo ainda mais mutabilidade desses KPIs com base nos subprincípios de cada modelo de jogo.


Entretanto, não necessariamente os KPIs do atletas definidos em certa estratégia de mercado irão divergir – o que será diferente será a aplicação das potencialidades de cada atleta dentro do modelo previsto.

Some ao componente psicológico e as demandas técnico-táticas:

  • Necessidades físicas – que também variam de acordo com o modelo. Quantos estímulos de alta velocidade suprem a aplicação desse modelo numa determinada função? Quantos km o atleta médio de uma determinada posição corre em certa plataforma de jogo?
  • Urgências financeiras. Seu clube precisa vender jogadores para pagar as contas imediatas? Essa é uma exigência habitual? Se sim, os jogadores contratados (ou aqueles remanescentes de quem se espera ver uma maior minutagem) possuem potencial de venda/revenda? Para quais mercados?

    A melhor maneira de procurar entender se existe uma tese de investimento em voga no seu clube é procurar sinergia entre as contratações feitas nesta janela e as da última temporada. Há uma lógica estabelecida ou os nomes parecem aleatórios em qualquer frente analisada? Se a aleatoriedade parece inegável, o último teste (para o caso de uma tese de investimento estar sendo iniciada neste momento) é averiguar o contexto. O mercado tem sido condizente com os desafios da equipe na temporada? Existe suficiente profundidade no elenco? O que o mercado desta janela pavimenta para o mercado da janela de meio de ano?

    Como se vê, o processo de montagem de um elenco é multifacetado. E a evolução dessa visão por Marcelo Paz/Fortaleza é nítida. Tomemos como exemplo a recente contratação do zagueiro Wagner Leonardo, emprestado pelo Santos ao tricolor. O jogador vem com contrato até meados do primeiro semestre de 2023 com opção de compra vinculada – ou seja, em pouco mais de um ano, o Fortaleza precisará optar por realizar ou não um investimento milionário para adquirir em definitivo o jogador. Seria cômodo esperar até lá, torcendo para que a performance do atleta fosse satisfatória o suficiente para motivar a aquisição mas não ao ponto de despertar o interesse, por exemplo, de concorrentes europeus que possam oferecer ao jogador mais do que o Fortaleza poderá pagar. É preferível, então, trabalhar com a mitigação do risco (considerável) de o Fortaleza precisar repor a saída de Wagner Leonardo em 2023, em cenários hipotéticos variados:


i. O jogador ter performance aquém do esperado pelo clube;

ii. O jogador ter performance além do esperado pelo clube mas ser assediado por times com capacidade financeira mais que o Fortaleza;

iii. O jogador sofrer uma grave lesão;

iv. O jogador ter performance além do esperado pelo clube, se tornar uma peça-chave no modelo de jogo desenvolvido e ser uma tolice não ter um reserva pronto (e barato) disponível para quando não for possível contar com Wagner.

Possivelmente de olho em futuros alternativos similares aos descritos, o Fortaleza recentemente emprestou o zagueiro João Paulo ao Náutico, uma cessão que tende a se provar inteligente, mais uma vez, por uma lista de motivos:

a. O Náutico possivelmente propiciará ao jogador uma minutagem robusta que dificilmente seria ofertada no Fortaleza, visto que João Paulo é um zagueiro similar a Wagner Leonardo em altura, pé preferencial e forma de jogar;

b. O Náutico foi o clube que há menos de ano desenvolveu Wagner Leonardo e o expôs ao mercado. O treinador responsável pela sua evolução, Hélio dos Anjos, segue no clube e pode proporcionar um desenvolvimento similar, preparando o atleta para o Fortaleza;

c. Para o caso de Wagner não render no Fortaleza e deixar o clube em 2023, o clube talvez tenha uma reposição imediata já pronta para jogar; e ainda que Wagner se credencie como titular incontestável em sua posição e venha a ser adquirido, o Fortaleza pode receber um suplente ideal e com margem de evolução.

Notavelmente, a percepção de mercado do Fortaleza evoluiu na mesma proporção que o clube entre 2015 e 2022, e no auge de sua história tricolor parece haver conciliação do desfrute do momento com o planejamento para estendê-lo. E como anda o seu time? O que é possível inferir dos discursos e das práticas de seus dirigentes no mercado?

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