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	<title>Rodolpho Moreira &#8211; NE45</title>
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	<description>Do Nordeste para o Nordeste</description>
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	<title>Rodolpho Moreira &#8211; NE45</title>
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		<title>Por que Gabriel Poveda não jogou no Náutico?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Sep 2022 13:17:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda-170x96.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Atacante Gabriel Poveda, do Sampaio Corrêa - Vitória" decoding="async" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda-170x96.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda-600x338.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda-768x432.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Por que Gabriel Poveda não jogou no Náutico? 1">O gol de empate marcado por Gabriel Poveda, do Sampaio Corrêa, na vitória de virada por 3&#215;1 sobre o Náutico na última sexta-feira foi o 15º do atacante de 24 anos nesta Série B (até aqui, o artilheiro da competição) e o 22º na temporada. Números não apenas recordes, mas estratosféricos na carreira do atacante. [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda-170x96.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Atacante Gabriel Poveda, do Sampaio Corrêa - Vitória" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda-170x96.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda-600x338.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda-768x432.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/08/poveda.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Por que Gabriel Poveda não jogou no Náutico? 2">
<p>O gol de empate marcado por Gabriel Poveda, do <strong>Sampaio Corrêa</strong>, na vitória de virada por 3&#215;1 sobre o <strong><a href="https://ne45.com.br/category/clubes/nautico/">Náutico</a></strong> na última sexta-feira foi o 15º do atacante de 24 anos nesta <a href="https://www.cbf.com.br/futebol-brasileiro/competicoes/campeonato-brasileiro-serie-b/2022" target="_blank" rel="noopener"><strong>Série B</strong></a> (até aqui, o artilheiro da competição) e o 22º na temporada. Números não apenas recordes, mas estratosféricos na carreira do atacante. </p>



<p>Com uma minutagem de 3229 minutos (dados <a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=571601" target="_blank" data-type="URL" data-id="https://www.ogol.com.br/player.php?id=571601" rel="noreferrer noopener">ogol</a>), Poveda possui uma média interessante de um gol a cada 147 minutos (ou 1 gol a cada 1,63 jogos). A evolução é significativa no número de gols marcados (entre 2018 e 2021, o atleta marcou apenas 10 gols, menos da metade do que já marcou apenas em 2022), mas não devemos desconsiderar a minutagem: os mencionados 3229 minutos de 2022 superam a minutagem somada (2872’) de Poveda em 2021 (335’), 2020 (1800’) e 2019 (737’).</p>



<p>Há um “dilema do ovo e da galinha” na ascensão de Poveda que merece ser examinado. Entender a raiz de seu desempenho é tão desafiador que, confesso, tive enorme dificuldade para decidir <em>por onde começar</em> o exame. Um dos aspectos mais importantes será negligenciado neste texto: a avaliação tática, pois tanto pela falta de tempo quanto por ausência de propósito no estudo (entender como <em>saem </em>os gols de Gabriel Poveda é desnecessário para os fins do texto) irei me abster de uma avaliação digna.</p>



<p>Gabriel Poveda é o tipo de contratação quase sempre questionada em clubes de futebol, <em>especialmente</em> em clubes de massa. O parco histórico de gols em sua carreira (<em>ao menos até 2022</em>) por equipes medianas (Juventude, Brasil de Pelotas) é motivo de rejeição quase que imediata e justificada de forma simples nas redes sociais e, por extensão, nos bastidores dos clubes: “se não fez gols no Brasil de Pelotas (se aplica a qualquer time), vai fazer no ________?”. </p>



<p>De fato, o Náutico, até aqui a maior vítima de Poveda em sua incipiente carreira (scouts abaixo) é um exemplo recorrente tanto dessa crítica quanto de uma <em>possível</em> justificativa à mesma. Se tornou comum no histórico recente do alvirrubro de Rosa e Silva um fluxo considerável de atacantes contratados com pouco ou mesmo nenhum histórico artilheiro. A lista nos últimos 5 anos é farta e composta de nomes desconhecidos que, em sua maioria, não trouxeram nenhum retorno técnico ao clube. Exceto por <a href="https://www.ogol.com.br/jogador.php?id=133480" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Vinicius</a>.</p>



<p>Atualmente no Goiás, Vinicius chegou ao Náutico em 2020 com a péssima e folclórica reputação de marcar apenas 1 gol por temporada. E, de fato, foi assim no início da passagem pelo timbu. Estreando na metade da Série B daquele ano, Vinicius marcou apenas 1 gol e, a despeito de uma relevante participação tática no esquema do então treinador Hélio dos Anjos, foi pouco produtivo na geração de ações ofensivas. Causou enorme surpresa quando, ao longo de 2021, o atacante marcou 13 gols (mais que o dobro de que os 6 gols marcados pelo Palmeiras em 2013, até então o melhor ano de sua carreira).</p>



<p>“Uma contratação acertada”, disse um agora ex-diretor de futebol do Náutico. Errado. Vinicius é uma contratação que <em>deu certo</em>, um conceito separado de uma <em>contratação acertada</em> por uma linha bastante tênue: nem toda contratação assertiva dá certo, e nem toda contratação que dá certo é feita de forma assertiva. Contudo, é muito mais provável darem certo as contratações pautadas em processos de análise de que em distribuições aleatórias – caso da chegada de Vinicius ao Náutico. </p>



<p>O atacante é um preferido de <a href="https://www.ogol.com.br/coach.php?id=2346" target="_blank" rel="noopener">Gilson Kleina</a>, com quem trabalhou no Palmeiras em 2012-13 (no segundo ano, fez o maior número de jogos de sua carreira em uma única temporada – 46) e em outros variados clubes para os quais Kleina indicou o atacante: Coritiba (2016), Chapecoense (2018), Criciúma (2019) e, finalmente, o Náutico em 2020.</p>



<p>A ida de Vinicius ao Náutico é baseada unicamente na passagem de Gilson Kleina pelo clube, e um caso raro onde esse tipo indicação deu frutos (ainda que não imediatos e colhidos já com o trabalho de um outro treinador, <a href="https://www.ogol.com.br/coach.php?id=744" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Hélio dos Anjos</a>). Voltaremos, em breve, à cronologia da performance de Vinicius. O fato é que se naquele momento em 2020 a direção de futebol do Náutico optasse por contratar qualquer outro treinador que não Kleina, seguramente Vinicius não teria jogado pela equipe.</p>



<p>Se no Náutico as contratações são feitas de forma aleatória, no Sampaio Corrêa, atual clube de Gabriel Poveda, há um processo de garimpagem que já há algum tempo beneficia o clube com retorno econômico e esportivo. <a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=176173&amp;epoca_id=143" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Luiz Otávio</a>, <a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=250416&amp;epoca_id=143" data-type="URL" data-id="https://www.ogol.com.br/player.php?id=250416&amp;epoca_id=143" target="_blank" rel="noopener">Jonas</a>, <a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=125350&amp;epoca_id=143" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Uillian Correia</a>, <a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=394744&amp;epoca_id=147" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fernando Sobral</a> e <a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=264017" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Wellington Rato</a> são alguns dos atletas que o Sampaio antecipou ao mercado nos últimos 10 anos que figuram (ou figuraram recentemente) a prateleira de Série A, para não mencionar uma lista bem mais abrangente de nomes altamente competitivos para uma Série B (como <a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=281768" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Caio Dantas</a>, artilheiro da divisão em 2020 pelo time maranhense).</p>



<p>A ida de Poveda ao Sampaio chama atenção por duas razões: a primeira é o mapeamento. Os números da carreira de Poveda já foram expostos e seguramente não foram esses os fundamentos do Sampaio na escolha pelo atleta. Podemos apenas especular quais tenham sido, mas a presença de Poveda no radar do Sampaio, ao menos na forma “tradicional” de se fazer futebol, era menos provável que na do Náutico. </p>



<p><strong>Dois dos oito gols</strong> marcados na carreira de Gabriel Poveda entre 2018 e 2021 foram marcados sobre o alvirrubro (o primeiro, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=EVp2S5m_Xvw" target="_blank" rel="noreferrer noopener">na semi-final da Série C de 2019</a>, pelo Juventude, e o segundo, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=HfwwIjnkGT4" target="_blank" rel="noreferrer noopener">na 8ª rodada da Série B de 2020</a>, pelo Brasil de Pelotas). Comparando o histórico contra os dois times, eis o recorte de Poveda até o fim de 2021:</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>vs. Sampaio Corrêa</strong>: 57 minutos jogados ao longo de dois jogos (uma derrota e um empate), com nenhum gol ou assistências</li><li><strong>vs. Náutico</strong>: 183 minutos jogados ao longo de quatro jogos (três vitórias e uma derrota)</li></ul>



<p>Poveda era um nome óbvio para o <em>radar</em> do Náutico (carrasco recente, com suas equipes saindo vitoriosas na maioria dos empates), mas não para o Sampaio (poucos jogos e minutos em exibições sem resultado de suas equipes). É possível dizer sem certeza, mas com fortes indícios que no Sampaio ele tenha sido produto de um processo de análise meticuloso e baseado em pesquisa de exibições contra outras equipes. </p>



<p>Não defendo, claro, que o Náutico o contratasse apenas por ter tido em Poveda um carrasco; levanto apenas a possibilidade preocupante de ele nunca sequer ter sido alvo de análise do clube. Mais uma vez temos uma linha tênue separando conceitos: ao enfrentar Poveda em quatro ocasiões e ser vazado pelo atacante em duas delas, o Náutico não deveria assumir meramente pelos gols marcados que havia ali potencial (os que estão familiarizados com minhas teses futeboleiras conhecem esse approach como “Método Bacardi”). Contudo, ao olhar os números de Poveda e constatar que apesar dos gols sobre o Náutico o atleta era bastante carente de gols marcados, o potencial de Poveda de se tornar um artilheiro não poderia ser descartado sem análise.</p>



<p>Passemos, então, ao segundo mérito do Sampaio Corrêa. <em>Identificar e contratar Poveda não é tudo</em>. A grande concentração de times sudestinos na carreira do atacante era um indicativo básico que seria necessária uma determinada <strong>adaptação</strong> ao clima e a logística de jogos existente no Nordeste.</p>



<p>Poveda marcou 4 gols em suas duas primeiras partidas na temporada, mas esteve longe de ser consistente nos primeiros meses de Sampaio. Entre 30 de janeiro e 30 de abril, foram 1055 minutos em campo (aproximadamente 1/3 da minutagem corrida até a presente data) e uma média de 1,67 gols/jogo, o que é, objetivamente, pouco acima de sua média da temporada, mas <strong>no escopo subjetivo, algo bem menos impressionante dado o baixo nível técnico vivido pelo Sampaio Corrêa no primeiro semestre</strong>: os 7 gols marcados por Poveda fora da Série B foram diante de equipes abaixo do patamar de Série B do Sampaio Corrêa: Altos e Floresta (Série C), Moto Club (Série D) e Cordino (sem divisão). </p>



<p>Olhando em retrospectiva, seria de se esperar que Poveda tivesse marcado muito mais gols nas competições regionais, ou, num viés contrário, <strong>qualquer um familiarizado com seu histórico no início da Série B jamais apostaria que o atacante passaria dos 10 tentos na Série B</strong>.</p>



<p>Um catalisador para os gols marcados foi, sem dúvidas, o crescimento do tempo médio de Poveda em campo. Até o último jogo antes do primeiro gol de Poveda na Série B, sua média de minutos em campo na temporada era de 55’. De lá para cá, a média é de 84’. <strong>O Sampaio apostou no crescimento de Poveda mesmo quando seus números indicavam um crescimento apenas moderado em relação ao histórico da carreira e, no escopo qualitativo, insuficiente para o sarrafo técnico da Série B</strong>.</p>



<p>Tal como Vinicius no Náutico (<strong>1 gol nos primeiros 1.161 minutos, 7 gols nos 1.161 minutos seguintes</strong>), a adaptação foi relevante para Poveda. Em diversos aspectos: ao clube, ao clima, ao modelo de jogo e às características individuais. No caso de Vinicius, o entrosamento individual com Jean Carlos nas cobranças de escanteio fechadas rendeu-lhe quatro gols (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=AglB_ojBs4I" target="_blank" rel="noopener">Botafogo</a>, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=YBxb6cor7JI" target="_blank" rel="noopener">Vasco</a>, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=vKzX8W6Mbuk" target="_blank" rel="noopener">CSA</a> e <a href="https://www.youtube.com/watch?v=xbBspLyYRTg" target="_blank" rel="noopener">Vitória</a>) na Série B de 2021. </p>



<p><strong>Foram 1822 minutos com Jean Carlos e Vinicius em campo até que o primeiro gol na dobradinha do escanteio no primeiro poste saísse, e apenas 1.018 minutos entre o primeiro e o quarto gol</strong> (uma densidade altíssima de gols marcados com a repetição da mesma movimentação num curto período, que culminou em forte atenção na bola aérea ofensiva alvirrubra; assim é o futebol, l<strong>eva muito tempo para que vantagens competitivas sejam construídas e pouco tempo para que sejam percebidas</strong>. É por isso que trocas <em>recorrentes de treinador são ofensores ao desenvolvimento</em>: a longevidade de um técnico permite a identificação de potencialidades e o aperfeiçoamento executor. Na troca, todo o processo é reiniciado).</p>



<p>Eis o dilema do ovo e da galinha mencionado lá atrás: Poveda estava <em>fadado </em>a ter excelentes números em 2022 (onde quer que estivesse) ou essa ascensão se deve ao ambiente em que está inserido? Num rápido exercício de imaginação, consideremos o cenário em que Gabriel Poveda tivesse sido um dos <strong>doze</strong> atacantes contratados pelo Náutico em 2022, com a consideração prévia de que, tal como ocorreu no Sampaio, fosse necessário um período de adaptação ao clube e seu contexto. </p>



<p>Poveda teria conseguido performar números similares em meio à quatro troca de treinadores? Ou, mais importante, Poveda <em>ainda estaria </em>no Náutico? (dos doze atletas mencionados, quatro deixaram o clube, dois não jogam desde o mês de julho e só recentemente o prata-da-casa Julio, que começou a temporada chamando atenção, desbancou o veterano Kieza, que com 1388’ ao longo de 2022 tem apenas um gol marcado; o garoto Julio, com 375’ entre os profissionais, tem três).</p>



<p>Não me absterei de opinar. Minha avaliação é de que o desempenho e os números de Poveda não ocorreriam em muitos outros clubes além do Sampaio. O histórico recente da equipe com atacantes não é uma feliz coincidência e sim o produto de um clube ciente de que pode <strong>encontrar na ineficiência comum do mercado da bola uma relevante vantagem competitiva</strong>. Os clubes, em geral, tratam a procura por atacantes como a busca de uma agulha no palheiro. </p>



<p><em>A dificuldade reside em não saber distinguir o que é agulha e o que é palha</em>. Assim, clubes sem tese de investimento no mercado (como o Náutico) acabam por trazem atacantes com diferentes características, para exercer diferentes funções em campo e em diferentes contextos, muitas vezes desalinhados da necessidade contextual do clube. Falta o entendimento de que o que estão procurando é por uma agulha altamente específica num imenso agulheiro, com diferentes tipos de agulhas, algumas mais novas e outras mais velhas (mas não necessariamente defasadas, caso de <a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=73768&amp;epoca_id=150" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ciel</a>, hoje no Tombense e que no ano passado estava no Sampaio).</p>



<p>Na hipótese de procura por um atacante como Poveda, desprovido de números relevantes, mas ainda em idade tenra, é necessária uma avaliação sistêmica e seguramente ignorada pela maioria dos clubes. A enumeração dos fatores universais (pois há alguns específicos que irão variar de clube para clube, em acordo com a cultura da instituição e o contexto de momento) demandaria dobrar o tamanho corrente do texto, de forma que deixo aqui o voto de esperança que minhas reflexões se disseminem. </p>



<p>Como visto, como clubes pecam tanto pela falha em identificar nomes de potencial (quase sempre por ausência de método) quanto, e este talvez seja o principal vetor de performance, pela falta de entendimento de que o problema não é resolvido com a contratação e sim com a adaptação. A queima de dinheiro no mercado se baseia meramente em contratar jogadores como uma resposta da torcida, um agrado ao treinador ou uma terceirização infinita:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>temos problemas e trazemos jogadores para resolvê-los;</li><li>esses jogadores não resolvem nossos problemas <em>imediatamante</em>;</li><li>trazemos mais jogadores para resolver os problemas que os outros não conseguiram.</li></ul>



<p>A folha no ciclo vicioso é simples: os clubes ignoram seus reais problemas e, mesmo quando os reconhecem, comumente o reconhecimento é tardio. O vai e vem de jogadores/treinadores já mudou as demandas de contexto e o jogador que serviria há 6 meses pode não servir mais (na maioria das etapas, sobretudo nos estágios avançados da temporada, a melhor conduta é <strong>não contratar</strong>, mas essa acaba por ser uma medida pouco midiática. Dirigentes não ganham microfone e nem relevância social acreditando em processos.</p>



<h2 class="has-text-align-center wp-block-heading">TELECAST – NÁUTICO 1 X 3 SAMPAIO CORRÊA – NORDESTE 45</h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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		<title>Análise do Náutico: Ponto de inflexão alvirrubro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 May 2022 20:58:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="85" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc-170x85.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Náutico campeão pernambucano 2022" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc-170x85.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc-600x300.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc-768x384.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Análise do Náutico: Ponto de inflexão alvirrubro 3">A renovação do grito de campeão pela torcida do Náutico após as vitórias (uma no tempo normal, outra nos pênaltis) sobre o Retrô pode vir a ser considerado um ponto de inflexão na história do clube quando olhada retroativamente em 10, 20 ou 30 anos. A conquista, a 24ª em âmbito estadual, é de consolidação, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="85" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc-170x85.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Náutico campeão pernambucano 2022" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc-170x85.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc-600x300.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc-768x384.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/05/2022_nautico_conquista_trofeu_pernambucano_1200__tiago_caldas_cnc.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Análise do Náutico: Ponto de inflexão alvirrubro 4">
<p>A renovação do grito de campeão pela torcida do <a href="https://ne45.com.br/category/clubes/nautico/"><strong>Náutico</strong></a> após as vitórias (uma no tempo normal, outra nos pênaltis) sobre o Retrô pode vir a ser considerado um ponto de inflexão na história do clube quando olhada retroativamente em 10, 20 ou 30 anos. A conquista, a 24ª em âmbito estadual, é de consolidação, diferentemente da de 2018 e de 2021 que marcavam o alívio pela quebra de incômodos tabus.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><a href="https://ne45.com.br/2022/04/30/nautico-roberto-fernandes-bicampeao/"><strong>LEIA: Roberto Fernandes se iguala a Muricy Ramalho e entra para grupo de técnicos bicampeões no Náutico</strong></a></li></ul>



<p>Quando Edno Melo e Diógenes Braga assumiram o clube em meados de 2017, o hiato de títulos e a ausência de autoestima no torcedor eram gargalos que só poderiam ser sanados juntos. Acessos, vitórias relevantes sobre grandes times do cenário nacional, nada poderia resgatar o orgulho alvirrubro além de taças. O clube precisava de conquistas variadas, em circunstâncias distintas, algo que mostrasse a uma geração de torcedores que é sempre possível acreditar.</p>



<ul class="wp-block-list"><li><a href="LEIA: Náutico conquista bi do Pernambucano; veja lista de campeões"><strong>LEIA: Náutico conquista bi do Pernambucano; veja lista de campeões</strong></a></li></ul>



<p>Num passado recente, o clube demonstrava força nos jogos em que vencer era importante, mas não obrigatório. As vitórias vinham quando perder era aceitável, jamais quando vencer e só vencer era demandado. Foi assim, por exemplo, no Pernambucano de 2010, quando jogou quatro vezes com o Sport, vencendo duas vezes, empatando uma e perdendo apenas o jogo derradeiro do torneio que deu o título ao rival; ou em 2014, quando na soma de Estadual e Copa do Nordeste Náutico e Sport duelaram seis vezes, com três vitórias para cada lado, sendo que as três vitórias do timbu ocorreram quando havia margem de recuperação em ambos os campeonatos para o lado perdedor e as três vitórias rubro-negras eram jogos de “nocaute”, duas delas nas finais do estadual.</p>



<p>Mas <strong>o Náutico deixou de ser o time que ganha quando pode perder e perde quando precisa ganhar</strong>. Em 2021, em três clássicos com o rival rubro-negro, perdeu um e empatou dois, mas sagrou-se campeão nas penalidades; em 2022, até o momento que este que vos escreve redige o texto, não venceu clássicos e contra o próprio Retrô perdeu dois em três jogos; acabou por vencer aquele que valia o campeonato, trazendo um bicampeonato que não vinha há 20 anos, o grande objetivo da direção para a temporada.</p>



<p>A autoestima está resgatada, os fantasmas foram todos exorcizados e o Náutico é um clube oxigenado. Quando jogou a final contra o Central em 2018, entrava em campo contra o adversário e contra todos os fracassos que vinham á mente de torcida e direção e contagiavam o elenco. Agora, joga livre de fardos e turbinado por uma confiança recém-construída por uma cultura vencedora em formação. Que precisa ser estimulada. E por isso, este texto, mais de que enaltecer o trabalho feito desde 2017, traz alertas que visam contribuir com as sadias cobranças da torcida para perpetuar o momento e fortalecer a cultura que se reforma com os troféus que são incorporados à galeria em Rosa e Silva.</p>



<p>Desde a conquista do hexacampeonato em 1968, o Náutico se habituou a viver com jejuns de conquistas. Foram 6 anos entre 68 e 74, quando interrompeu o pentacampeonato do Santa Cruz e criou o rótulo “luxuoso” do hexa. Findado o jejum, ninguém imaginaria que o alvirrubro viveria um jejum mais extenso. Mas foram 10 anos até o título de 1984, consolidado pelo bicampeonato em 1985. Depois, outro título em 89, numa década de muito equilíbrio em que Náutico e Sport faturaram três troféus cada, e o Santa Cruz quatro. Equilíbrio tamanho que nem o mais pessimista torcedor sonharia em viver outro lapso de vitórias.</p>



<p>Novamente, o vazio cresceu. Foram 12 anos entre 89 e 2001, quando o esquadrão comandado por Muricy Ramalho conquistou o título do centenário e tornou a levantar a taça em 2002. O novo título em 2004 se assemelhava muito a este de 2022: era um título de afirmação, não de alívio. Naquele momento, nenhum alvirrubro ou mesmo rival poderia imaginar uma nova seca. Mas sabemos que ela veio, novamente maior que a anterior. 14 anos separam 2004 de 2018. Assim como era em 1974, 1989 ou 2004, é difícil imaginar o Náutico longe das taças. Mas seria presunçoso assumir que isso não pode acontecer, e imprudente não se precaver para evitar que os mesmos erros que culminaram nos jejuns anteriores se manifestem.</p>



<p>Em comum com esses períodos indigestos está o ambiente político do clube. Em 2001, um novo grupo de alvirrubros assumia as rédeas do Náutico, capitaneado por André Campos. Junto com André, outros dois presidentes (Sérgio Aquino, em 2002, e Ricardo Valois, em 2004) sagraram-se campeões. As conquistas foram muito relevantes para uma geração de torcedores que só conhecia a derrota, e o Náutico é grato a quem fez parte disso. Mas é preciso entender o ponto de inflexão que ocorreu em 2004 e que volta a ocorrer agora, em 2022.</p>



<p>Quando André Campos assumiu em 2001, o cenário era parecido com o de 2017 na posse de Edno Melo. Ambos os lados podem buscar argumentos para elencar o maior grau de dificuldade em cada momento: em 2001, além do jejum de títulos, o Náutico defendia o hexacampeonato frente à hegemonia de cinco títulos consecutivos do Sport e fazia isso no ano de seu centenário; já em 2017 o jejum era maior e ainda que o Náutico não precisasse defender nenhuma conquista, estava próximo a Série C, realidade que bateu a porta meses depois.</p>



<p>Contudo, indiscutivelmente, ambos eram momentos complicados. A complicação em ambos provocava união de todos os lados da instituição, esforços combinados na coleta de recursos e procura de jogadores e uma determinação da torcida em aceitar limitações: contratações questionáveis, priorizar uma competição em detrimento de outra, folhas de pagamento baixas. Os alvirrubros aceitaram não arremessar pedras pois primeiro era preciso reconstruir a vidraça.</p>



<p>Com o sucesso obtido entre 2001 e 2004 e o que está sendo obtido desde 2018, a chave virou para a torcida sem que virasse para a diretoria. As conquistas trazem ânsias por novos saltos e aspirações maiores que meramente conquistar o campeonato pernambucano, e erros que em anos como 2001 e 2018 poderiam ser tolerados não mais o são. Mas para as diretorias, tanto a dos anos 2000 quanto a da atual gestão, que se enxergam como um grupo sacrificado que assumiu um Náutico abatido, cobranças são mal-vistas, afinal, o que havia antes das conquistas trazidas por estas pessoas? Torcedores passam a ser vistos como “tumultuadores” e isso potencializa uma cisão entre torcida e diretoria que reverbera no vestiário.</p>



<p>Claro, não estou aqui defendendo qualquer tipo de cobrança. Desde a volta do público aos estádios no pós-pandemia, a torcida do Náutico tem tomado atitudes reprováveis, como a invasão ao gramado dos Aflitos após a classificação sobre o Santa Cruz na semi-final do Pernambucano e o recente cerco ao presidente Diógenes Braga nas cadeiras dos Aflitos em sequência a derrota sobre o Retrô nos Aflitos, pelo jogo de ida da final estadual. Essas são atitudes reprováveis e qualquer resultado no campo não baliza tais comportamentos.</p>



<p>Mas há atualmente no seio do grupo gestor alvirrubro uma reticência ao movimento de cobrança em redes sociais (natural no futebol contemporâneo) tal como havia nos anos 2000 quando os sites não oficiais do clube ditavam o trâmite de informações do clube e formavam a opinião da torcida. É preciso reconhecer o peso do grupo de Edno-Diógenes e buscar contribuir com seu sucesso, mas o grupo precisa entender também que, por terem alcançado o que alcançaram até aqui, as cobranças crescerão. Foi justamente o raciocínio de “estamos vencendo enquanto outros não venciam, logo não podemos ser cobrados” que dinamitou os jejuns de títulos aqui discutidos.</p>



<p>É fundamental para o futuro de curto e longo prazo do Náutico entender o momento construído com esta nova conquista. No micro e no macro gerenciamento, a condução do futebol precisa ser diferente, ainda que sem dúvidas existam mais acertos de que erros desde 2017. É por ser neste ponto de inflexão que tradicionalmente ocorrem erros que passam a ser ignorados ou sequer percebidos que escrevo este texto. Uma nova chance de ambicionar e sobretudo alçar voos mais altos foi conquistada pelo Náutico, com muito mérito de quem conduz o clube. É o momento de colocar conquistas inéditas e necessárias, como a Copa do Nordeste, no topo da lista de objetivos do clube, de estabelecer a volta à Série A como algo a ser tratado com o cuidado que faltou em 2021, quando o acesso foi desenhado e toscamente perdido. É preciso viver o novo momento e entender que as cobranças são baseadas nele e nas perspectivas futuras, não no momento de 2018 e nas baixas perspectivas que lá haviam.</p>



<p>Definir metas é o primeiro passo, realizá-las um esforço de cada dia. No de hoje, resta comemorar a conquista recente e sonhar com as próximas.</p>
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		<title>Quem cobra faltas no Náutico, o problema por trás disso e notas sobre Dal Pozzo no Sport</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Mar 2022 11:55:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="85" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira-170x85.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira-170x85.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira-600x300.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira-768x384.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Quem cobra faltas no Náutico, o problema por trás disso e notas sobre Dal Pozzo no Sport 5">Analista do NE45 ]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="85" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira-170x85.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira-170x85.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira-600x300.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira-768x384.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/03/2022_jean_dal_pozzo_200_1_divulgacao_rodolpho_moreira.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Quem cobra faltas no Náutico, o problema por trás disso e notas sobre Dal Pozzo no Sport 6">
<p>Durante o breve período de 13 meses em que trabalhei como analista de desempenho de futebol profissional no América/RN, vivenciei algumas situações que constantemente sinto reviver através do acompanhamento de outros times. Vamos a uma delas. </p>



<p>Jogaríamos a final (jogo único) do 2º turno do Campeonato Potiguar contra o rival ABC, que tinha a vantagem do mando de campo e do empate. Como o turno inaugural já havia sido vencido pelo mesmo ABC, o empate sacramentaria o título do do torneio. O então treinador do América tinha como protocolo realizar uma bateria de cobranças penais ao fim da última sessão de treino antes dos jogos (o famoso <em>apronto</em>) e, com base no aproveitamento (cada cobrador batia três pênaltis), se decidia a ordem de cobradores para a partida, ignorando o aproveitamento dos atletas em jogos. O método era questionável, mas simples de entender.</p>



<p>Para aquela decisão, a ordem dos cobradores ficou definida da seguinte forma: Huguinho, que havia convertido suas três cobranças, seria o responsável pela responsabilidade na marca de cal caso estivesse em campo. Na ausência de Huguinho, Zezinho, com duas conversões assumiria a batida. O terceiro da lista era Luisinho, que assim como Zezinho havia errado uma das cobranças, com a diferença de que o pênalti de Zezinho havia sido defendido pelo goleiro (ao menos acertou a barra) enquanto o de Luisinho fora para fora. Um critério de desempate tão subjetivo quanto o próprio método.</p>



<p>Ao fim do 1º tempo, um pênalti foi marcado em favor do América após falta dentro da área convertida em cima de Zezinho. Contudo, a hierarquia determinava que Huguinho era o incumbido da batida. Ele assumiu a responsabilidade e abriu o placar. O resultado dava o título ao América, mas durou apenas poucos minutos após a volta do intervalo. O ABC achou o empate numa falta. Huguinho foi substituído. Ficaram Zezinho e Luisinho. Nos acréscimos, um novo pênalti foi marcado. </p>



<p>A hierarquia estipulada pelo treinador indicava Zezinho como batedor. A hierarquia dos jogadores, contudo, era diferente. Zezinho era um recém-chegado no elenco. De fato, aquele era seu primeiro jogo com a camisa do América. E Luisinho era um atleta com excelente histórico penal. Meses antes havia convertido um pênalti que significou uma gorda premiação para o América na Copa do Brasil. Nos treinos, apesar de ter perdido uma cobrança na sessão pré-jogo, seu aproveitamento era quase irreparável &#8211; e suas cobranças eram sempre iguais: altas em chute cruzado.</p>



<p>Quase imediatamente ao ato da marcação do pênalti, Luisinho correu em direção a bola, segurou-a e não mais a soltou. Enquanto os jogadores do ABC cercavam o árbitro, Zezinho tentava pegar a bola do resistente Luisinho. Desistiu. Luisinho assumiu a cobrança, bateu sua batida (chute cruzado, alto) e isolou a bola. ABC campeão.</p>



<p>Levei mais parágrafos do que gostaria (e deveria) para contar a história. Suspeito também que não conseguirei sintetizar o que ainda está por vir no texto. (O leitor não pode reclamar de não ter sido avisado).</p>



<p>Desde minha deliberada saída do América (e do futebol), voltei a acompanhar o esporte como alguém de fora e com uma visão mais enviesada (e com dificuldade para encontrar a mesma paixão. Assunto para outro texto). Como torcedor declarado do Náutico, esse é, naturalmente, o time que mais vivencio (ao rubro-negro, paciência, pois há conteúdo para você também). E não consigo dissociar o momento alvirrubro daquela tarde em Natal, e não deixo de pensar que, a despeito de o clube estar numa Série B enquanto o América definha na D, a forma de fazer futebol do time do coração não está distante da do meu antigo empregador.</p>



<p>Os últimos jogos do alvirrubro pernambucano mostram uma tremenda confusão na definição dos cobradores. Jean Carlos, absoluto em Rosa e Silva nas últimas três temporadas, deixou de ser <strong>O</strong> homem da bola parada. Há poucas semanas, em Maceió, num jogo em que o Náutico perdia para o CSA por 3&#215;0, uma falta frontal se apresentou. Com Jean Carlos em campo. Junior Tavares (que até já tem gol de falta marcado na temporada diante do fraco Sete de Setembro, mas que está longe de ser um especialista no fundamento) efetuou a cobrança. Parou na barreira.</p>



<p>Dias depois, jogando em Tocantinópolis contra o time da cidade pela Copa do Brasil, perdendo o jogo por 1&#215;0 (e consequentemente dando um adeus precoce ao rentável torneio) e com menos de 10 minutos para serem jogados, uma nova falta frontal apareceu. Novamente com Jean Carlos em campo. Ele sequer se posicionou para a cobrança. Leandro Carvalho finalizou a bola alguns muitos metros por cima do gol.</p>



<p>Ambos os episódios ocorreram já sob a batuta de Felipe Conceição. Um problema não corrigido. Na injustificável derrota para o Sport por 1&#215;2 nos Aflitos, no momento mais favorável para o Náutico no jogo (vencia, por 1&#215;0, um oponente combalido), uma nova falta frontal foi marcada para o time de Conceição. O gol da vitória parcial fora marcado por Jean Carlos numa falta de <em>expectativa de gol</em> muito menor. O mesmo Jean Carlos estava em campo. Era não apenas o candidato natural ao posto de cobrador. Era, sem dúvidas, a única opção para o tiro. <strong>Pausa no tópico</strong>.</p>



<p>O plástico gol de Jean Carlos no lance derradeiro da etapa inaugural era o prêmio justo para uma equipe que só não construiu uma vantagem significativa antes por falta de qualidade ofensiva. Resolveu o único jogador que poderia, individualmente, resolver.</p>



<p>Na volta do intervalo, a tônica dos primeiros 45 minutos foi mantida. Um Sport afobado, com imensas dificuldades de sair da marcação pressionante do rival, não conseguia criar. Felipe Conceição vivia o ápice de seu sábado. É preciso enaltecer: mesmo com alguns desfalques relevantes, conseguiu fazer o Náutico performar um futebol envolvente e físico, aquilo que chegou se propondo a fazer. </p>



<p>Mas o jogo é, acima de tudo, comportamental. E pouco a pouco o Náutico foi denunciando um desinteresse pelo clássico. Uma morosidade incompreensível. Marcada por dois pilares: o primeiro deles, físico. Até pelo nível de intensidade imprimido com e sem bola, o time de Conceição (sobretudo o pelotão ofensivo) cansou. E haviam alternativas. <strong>O recém-chegado Léo Passos é um atleta conhecido pela capacidade de pressionar defesas adversárias</strong>. O Náutico construiu diversas blitz ao longo do confronto, forçando o erro dos zagueiros, laterais e volantes rubro-negros. Com o tempo, a manutenção dessas blitz somente seria possível com sangue novo. Conceição não o injetou. Até o fez, na verdade, acionando (com alguma demora &#8211; a primeira mudança ocorreu apenas com 23 minutos do segundo tempo) os jovens Juninho Carpina e Jhon Kennedy. Atletas sem a supracitada capacidade de pressionar. Custou caro. O Sport empatou o jogo. Dois minutos depois, vieram as mudanças que deveriam ter ocorrido com muita antecedência. Léo Passos na vaga de Wagninho. Thassio na de Ewandro. Amarildo na de Robinho. Surtiu efeito. </p>



<p>Uma jogada de linha de fundo de Thassio foi o momento mais promissor do Náutico após o empate adversário; uma tentativa de Léo Passos de romper linhas rubro-negras aos 49&#8242; foi o ato mais ousado de um Náutico minúsculo no segundo tempo. Mas foi o Sport que encontrou o gol da vitória, num contra-ataque concluído por Ewerthon em (até aqui rara) falha de Lucas Perri.</p>



<p>Mas o gol do Sport, ainda que seja produto de méritos a serem mencionados do time, passa muito pela mensagem enviada pelo Náutico ao longo do 2º tempo. <strong>Fim da pausa</strong>. Quando teve, no segundo tempo, a falta frontal desenhada para a cobrança de Jean Carlos e prescindiu da cobrança o seu melhor cobrador para que Junior Tavares assumisse a batida pois &#8220;ele pediu para bater&#8221;, o Náutico enviou uma mensagem de desinteresse. E de desrespeito. E de soberba. O jogo estava longe de estar ganho. E mesmo que estivesse, a mensagem seria a mesma. Antes de revelá-la, me sinto obrigado a esclarecer: </p>



<p>É provável que, caso Jean Carlos tivesse sido o responsável pela cobrança, o destino da batida fosse o mesmo (tiro de meta para o Sport). Mas ao abdicar do seu melhor cobrador, o Náutico evidenciou algo que já há algum tempo é claro. <strong>O time não gosta do cheiro de sangue.</strong></p>



<p>Sim, pois era esse o único cheiro permeando o ar na atmosfera do clássico. O Sport sangrava e não seria preciso muito para dilacerá-lo irreparavelmente. O desinteresse pelo aniquilamento foi evidenciado naquele lance. O Sport passou a gostar do jogo e, dentro de suas limitações, oferecer um perigo que até então era desconhecido. Isso aconteceu por tempo suficiente sem o dano de um gol sofrido para que Felipe Conceição pudesse fazer ajustes. Não ocorreram. Na bola parada, num escanteio originado após um lance infantil da defensiva alvirrubra, sai o empate.</p>



<p>É preciso dar ao jogo o peso que ele tem, para ambos os lados. Para o Náutico, acima de tudo, a derrota é vergonhosa, pela negação em nocautear um adversário nas cordas. Efetivamente falando, custou a possibilidade de ser o primeiro lugar geral do torneio e, a depender do resultado do clássico vindouro com o Santa Cruz no Arruda, pode custar também o acesso direto à semi-final. Sob todos os vieses, é um ocaso considerável. Que não deixa nenhuma lição nova, mas reforça duas que já são velhas.</p>



<ul class="wp-block-list"><li>A primeira delas é que a cultura profissional no clube ainda é uma realidade distante. Pode haver um executivo de futebol sem que isso signifique um futebol profissionalizado. A definição dos homens da bola parada na base da vontade dos jogadores de cobrar uma falta é um exemplo inquestionável e que exige a adoção de uma série de protocolos, pois como minha história prova, nem mesmo a autoridade do treinador pode ser suficiente para manter o respeito por uma hierarquia de cobranças. É preciso estipular protocolos que assegurem o cumprimento das determinações táticas-técnicas, tais como punição em caso de descumprimento. Zezinho, nosso Jean Carlos, precisa ter a segurança de que será o cobrador e ter sua confiança estimulada; Luisinho, o Júnior Tavares, precisa respeitar a determinação de seu comandante e saber que só poderá assumir as cobranças treinando e superando o desempenho de Zezinho. No América, a insubordinação de Luisinho foi um problema resolvido no vestiário, mas nem Luisinho nem o treinador desobedecido estão mais no clube, que por não ter tomado nenhuma atitude para precaver uma situação similar no futuro segue exposto a esse tipo de problema.</li><li>A segunda é que o elenco em questão segue sem saber como se portar em contextos variados. Os dois clássicos contra o Sport são os maiores expoentes. No 2&#215;3 da Copa do Nordeste, o alvirrubro saiu na frente na Ilha do Retiro e após permitir que Mikael tivesse duas chances claras (e não aproveitadas), não conseguiu fechar espaços e levou o empate do ex-artilheiro rubro-negro no apagar das luzes no primeiro tempo. No segundo, levou a virada, teve um jogador expulso, mesmo com um a menos achou o empate e numa postura pouco prudente acabou levando o gol que sacramentou a derrota. Essa nova derrota, novamente de virada, mostra uma dificuldade da equipe em ler os momentos do jogo &#8211; na Ilha do Retiro, quando se demandava cautela, o time se lançou aleatoriamente ao ataque e perdeu o jogo; nos Aflitos, quando era o momento de liquidar o oponente, optou por abdicar de jogar e menosprezar suas oportunidades. Os jogos contra o Sport não são ponto fora da curva e mesmo times mais frágeis, como o Afogados, conseguiram recuperar vantagens abertas pelo alvirrubro.</li></ul>



<p>Para o Sport, a vitória foi, sem dúvidas, uma injeção de confiança. A imposição sobre o rival, repetindo o roteiro visto contra o Bahia, mostra que a despeito da ausência de opções e qualidade, há um querer por parte do grupo. O mérito do Sport no jogo foi querer.</p>



<p>Aproveitando o momento positivo construído com a vitória nos Aflitos, o clube oficializou a surpreendente contratação de Gilmar dal Pozzo. O técnico destoa do perfil estipulado pela direção rubro-negra após a demissão de Gustavo Florentín e foi trazido resguardado por justificativas inusitadas: <strong>caráter</strong> (se assume ser um pré-requisito), consultas a <strong>profissionais</strong> que trabalharam com Dal Pozzo (outro pré-requisito) e a <strong>imprensa</strong> (quase sempre operando num escopo de avaliação dissonante das necessidades de um clube). Nenhuma fala sobre o jogo jogado e como Dal Pozzo pode acrescentar a ele. Apenas a menção de que é um treinador experiente em acessos (um critério que, se seguido a risca, levaria Givanildo Oliveira ou Geninho a assumir o comando leonino, ambos com muito mais respaldo ascendente que Gilmar dal Pozzo).</p>



<p>Eis o que posso dizer.</p>



<p>Ao contrário do senso comum estabelecido, Gilmar dal Pozzo não é um técnico carente de repertório tático. No Náutico, se mostrou um estrategista nas duas passagens, sempre optando por variações na proposta de jogo que se mostravam desafiadoras para os treinadores adversários. Em 2019, na campanha do título da Série C, Dal Pozzo mantinha a estrutura tática (4-3-3) mas alterando a altura do bloco de marcação e os gatilhos de pressão de acordo com o adversário. Fez boas partidas marcando com o bloco baixo (vitória contra o Botafogo/PB em João Pessoa, na penúltima rodada da fase de grupos) e alto (derrota para o Juventude no jogo de ida da semi-final), recuperou jogadores encostados no elenco (algo imprescindível para o atual Sport), com maior destaque para Matheus Carvalho, que passou três meses sem atuar com Márcio Goiano por opção técnica.</p>



<p>Seu maior defeito (explicitado em duas passagens) é a carência no conhecimento de mercado. A restrição ao mercado do futebol do Sul (onde desenvolveu a maior parte da sua carreira) e a afinidade com jogadores de baixo nível competitivo foram os maiores ofensores nesse sentido. Essa, contudo, é uma preocupação que não deveria existir, visto que, em tese, um clube do patamar do Sport deveria possuir um centro de inteligência pró-ativo e que fornecesse aos tomadores de decisão do clube jogadores aptos a performar dentro da proposta de jogo de Gilmar dal Pozzo. É infundado, contudo, o argumento de que é um técnico sem repertório tático. Nas quatro linhas, Dal Pozzo peca pela dificuldade em encontrar uma proposta de jogo de desempenho duradouro. Sempre se saiu melhor nas vezes em que encontrou uma variação estrutural. Essa é, inclusive, a origem da famosa &#8220;diarreia mental&#8221; cunhada na história do podcast 45 Minutos.</p>



<p>No Estadual de 2016, edição na qual Gilmar dal Pozzo comandou o Náutico até a eliminação na semi-final para o Santa Cruz, Dal Pozzo foi para um clássico contra o Santa Cruz no Arruda enfrentar o treinador Marcelo Martelotte. O retrospecto recente era absoluto: na reta final da Série B 2015, o Náutico de Dal Pozzo havia, de virada, vencido o Santa Cruz de Martelotte no Arruda por 3&#215;1; e na 1ª rodada daquele certame, a vitória por 2&#215;0 do time de Dal Pozzo foi construída na Arena Pernambuco. </p>



<p>No <a href="https://www.youtube.com/watch?v=2DSbOeMv6WY" target="_blank" rel="noopener">clássico de 2015</a>, Dal Pozzo optara por um time com três volantes, sendo dois deles de pegada mais forte (João Ananias e Jackson Caucaia) e um de mais qualidade nas bolas longas (Fillipe Soutto) que seriam exploradas em benefício de Hiltinho e Bergson, tendo Daniel Morais como referência para o trabalho de pivô. O gol de empate teve o recurso do pivô de Daniel Morais, e o gol que sacramentou a vitória saiu de um lançamento longo de Fillipe Soutto para Hiltinho.</p>



<p>Na <a href="https://www.youtube.com/watch?v=7YLVcts0Bns" target="_blank" rel="noopener">vitória na Arena Pernambuco</a>, Dal Pozzo optou por um 4-3-3 com dois volantes, um meia e dois pontas (Rony e Bergson) com um centroavante de referência. A proposta foi baseada na capacidade dos pontas de explorar a deficiência da pesada linha de 4 do Santa Cruz, que contava com Alemão, Danny Morais e Tiago Costa. Os gols da vitória saíram em contra-ataques, num pênalti sofrido por Rony e numa arrancada de Bergson.</p>



<p>Para o novo embate, Dal Pozzo optou por reproduzir parcialmente a proposta da vitória de meses atrás no Arruda, acionando Gil Mineiro como terceiro volante. O Náutico criou diversas possibilidades de gol sobretudo no 1º tempo, boa parte delas tendo Gil Mineiro como válvula de escape. O jogo acabou <a href="https://www.youtube.com/watch?v=VJcZ7wtw89A" target="_blank" rel="noopener">empatado em 1&#215;1</a>, mas mesmo jogando na casa do adversário o Náutico foi um time com mais volume de jogo.</p>



<p>Chegamos, então, a &#8220;diarreia mental&#8221;. A alcunha vem da escalação de Gil Mineiro no jogo de ida da semi-final do Pernambucano de 2016, vencido pelo Santa Cruz por <a href="https://www.youtube.com/watch?v=j6fVq4DNsoQ" target="_blank" rel="noopener">3&#215;1</a>. O treinador coral já não era mais Marcelo Martelotte e sim Milton Mendes, que seguramente assistira ao compacto do empate mais recente que tivera Gil Mineiro como motorzinho alvirrubro. Gil era um jogador limitado tecnicamente e Milton Mendes montou uma estrutura pronta para impedir seus avanços. Reforço: o principal defeito de Gilmar dal Pozzo é a dificuldade em encontrar performance constante numa única proposta de jogo. Há um limite de opções para supreender o adversário e um limite de uma vez até que a &#8220;supresa&#8221; vire protocolo. Naquela noite, Dal Pozzo não tirou nenhum coelho da cartola e Milton Mendes anulou sua estratégia pautada em Gil Mineiro.</p>



<p>Eis aqui o início do ponto de conclusão do texto. É interessante avaliar os diferentes desafios de Felipe Conceição e Dal Pozzo para Náutico e Sport. Comecemos pelo primeiro.</p>



<p>Discordo de Conceição em sua <a href="https://ne45.com.br/2022/03/12/apos-derrota-em-classico-conceicao-elogia-atuacao-do-nautico-resultado-enganoso/">defesa pelo merecimento da vitória do Náutico</a>. O time não mereceu vencer pois ainda que tenha praticado um melhor futebol, optou por abdicar do resultado. E isso é demérito. A resposta ao fracasso na partida é importante e, caso haja uma gestão apropriada do momento (que passa pela blindagem do técnico e do elenco para o jogo com o Globo na Copa do Nordeste), o Náutico pode vir a colher bons frutos do trabalho de Conceição. O técnico em breve receberá atletas importantes de volta do Departamento Médico (caso de Rhaldney) e contará com os reforços mais recentes em boa condição de jogo. Até o momento, Conceição falhou nos principais desafios que vivenciou, mas há razões para crer na sua capacidade de trazer resultados e curto e longo prazo.</p>



<p>Dal Pozzo precisa, no Sport, reencontrar um rumo na carreira que se perdeu após os primeiros trabalhos pós-saída da Chapecoense (até hoje seu trabalho mais notável). Um outro gargalo considerável do treinador é sua gestão de carreira; após a demissão do Náutico em 2020, Gilmar encontrou mercado apenas para ser bombeiro em clubes do sul do país (Paraná, em 2020, e Joinville, em 2022 &#8211; falhou em ambos), mostrando que seu alcance mercadológico é de fato nivelado a este nicho e tornando ainda mais incompreensível a opção do Sport em contratá-lo. No campo, lidará com um nível de pressão inédito até aqui em sua carreira, e algo com o qual o histórico na carreira pesa contra. É que as duas demissões no Náutico (2016 e 2020) e a no Ceará (2017) vieram justamente após fracassos em jogos que havia demasiada pressão sob o treinador. As demandas de curto prazo do Sport me fazem achar improvável uma vida longa do &#8220;padre&#8221; na Ilha do Retiro.</p>



<p>Quer eu esteja certo ou errado a respeito das perspectivas de ambos os treinadores para suas equipes, creio estar bastante certo quando escolho a conduta do Náutico em ter as bolas paradas decididas num jogo de adedonha pelos atletas e o processo turbulento e aleatório do Sport em escolher seu treinador como exemplos da distância de dois dos principais clubes do estado para o profissionalismo no futebol. No fim das contas, o futebol pernambucano ainda é um ambiente muito apropriado para Luisinho bater pênaltis. </p>



<p></p>
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		<title>Minúcias: notas sobre cultura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Feb 2022 11:40:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3-170x96.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Estádio dos Aflitos, Náutico - convite Libra" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3-170x96.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3-600x338.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3-768x432.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: notas sobre cultura 7">O futebol brasileiro vem nos últimos meses atropelando agendas que sempre foram importantes e há pelo menos 10 anos tornaram-se urgentes, tais como a revisão de seu calendário. Tal atropelo vem para acelerar o debate, entendimento e decisões inerentes às Sociedades Anônimas do Futebol, uma pauta naturalmente importante mas que não necessariamente é urgente. Um [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3-170x96.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Estádio dos Aflitos, Náutico - convite Libra" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3-170x96.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3-600x338.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3-768x432.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Aflitos-Nautico-TiagoCaldas-3.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: notas sobre cultura 8">
<p>O futebol brasileiro vem nos últimos meses atropelando agendas que sempre foram importantes e há pelo menos 10 anos tornaram-se urgentes, tais como a revisão de seu calendário. Tal atropelo vem para acelerar o debate, entendimento e decisões inerentes às Sociedades Anônimas do Futebol, uma pauta naturalmente importante mas que não necessariamente é urgente.</p>



<p>Um gargalo generalizado nos clubes brasileiros parece ser a pressa em discutir o modelo de SAF sem analisar a aderência do modelo às suas próprias culturas. A formação dessas culturas num modus operandi amador e a recusa em revisá-las faz com que dirigentes ajam de forma que possivelmente contraria suas vontades pessoais, mas o clichê &#8220;a cultura come a estratégia no café da manhã&#8221; não é clichê a toa.</p>



<p>O Náutico é um dos clubes que recentemente anunciou estar envidando esforços para uma possível transição para o modelo de SAF. Esse pode ser um caminho viável, mas julgo pouco prudente pensar em migrar para um modelo ainda incipiente quando o modelo em voga há décadas jamais foi repensado. As ações do clube demonstram inaptidão para executar um planejamento de uma temporada, tornando difícil assimilar que haja capacidade estratégica e executora para planejar uma mudança no modelo de gestão do clube sem ônus.</p>



<p>A recente saída de Hélio dos Anjos é um exemplo suficiente para entender as barreiras. Não apenas pelos episódios intensos que culminaram no fim da passagem do treinador, mas (principalmente) por todo o processo iniciado quando da sua volta após a precoce saída de Marcelo Chamusca. </p>



<p>A essa altura, todos sabem que após o fracasso de Chamusca em reverter a queda brusca de performance do Náutico na Série B 2021 (iniciada ainda sob o comando de Hélio), o Náutico trouxe de volta o técnico campeão estadual com um contrato firmado até o fim de 2022. <strong>Um contrato de 15 meses para um treinador que mesmo tendo protagonizado uma reação salvadora na Série B de 2020 e conquistado o título Pernambucano de 2021 não conseguiu completar 12 meses no cargo.</strong></p>



<p>O Náutico assumiu algumas apostas ao realizar um contrato tão esticado com o treinador:</p>



<ul class="wp-block-list"><li><em>Que o núcleo da diretoria que o contratou permaneceria à frente do clube</em>. Essa era uma assumpção bastante segura, mesmo com a eleição marcada para acontecer na instituição em dezembro, pois dificilmente a chapa que viria a ser capitaneada por Diógenes Braga perderia o pleito.</li><li><em>Que o desgaste da primeira saída</em> (marcada por uma sequência de cinco derrotas consecutivas, confusões no vestiário e um processo acionado pela ausência de pagamentos acordados) <em>não iria interferir na &#8220;segunda etapa&#8221; do trabalho.</em> Essa era uma assumpção inocente, considerando o hiato breve entre o fim de uma passagem e o início da outra, a pressão pela busca por um acesso praticamente perdido e a potencialização desses aspectos pelo pleito vindouro.</li><li><em>Que o restante da Série B não traria nova carga de desgaste ao trabalho, ou que esta, se existente, seria mínima</em>. Outra hipótese inocente, pois somente uma (improvável) campanha que culminasse no acesso que até a 14ª rodada da competição era iminente conseguiria aparar arestas entre torcida-treinador-diretoria.</li></ul>



<p>Sob esse viés, já é possível considerar o prazo contratual estabelecido <strong>excessivo</strong>. Mas há um dado estatístico-cultural ainda mais crucial para diagnosticar o tamanho do erro. A última vez que o Náutico conseguiu iniciar e encerrar uma temporada com o mesmo treinador, sem trocas no percurso, foi em 2004, com Zé Teodoro. Diferentemente de Hélio, Zé era novato, chegou ao clube sem qualquer desgaste anterior acumulado e isso fez diferença para resistir ao impulso de troca nos momentos de pressão naquela temporada. </p>



<p>É aqui que fica nítido o peso da cultura. Exceto pela configuração de início de trabalho (um Zé Teodoro &#8220;novato&#8221; em 2004, um Hélio dos Anjos já desgastado no início de 2022), se formos comparar o mesmo Zé em 2004 com o Hélio de 2021, podemos atestar o quão fora da curva foi a permanência ininterrupta de Zé Teodoro há 18 anos. O Hélio de 2021 tinha créditos suficientes para quebrar o &#8220;tabu&#8221;: permanência heroica na Série B 2020, um título estadual marcado por quebras de jejuns cinquentenárias e o melhor início de Série B na história dos pontos corridos. Claro, neste último ponto, quanto mais alto a queda, maior o tombo. Mas se o Hélio dos Anjos de 2021, com um saldo extremamente positivo carregado, não obteve sucesso em iniciar e concluir o trabalho em 12 meses, o que credenciaria o Hélio já com ressalvas do último trimestre de 2021 a permanecer por 15?</p>



<p>Naturalmente, não estou defendendo a permanência-pela-permanência de um técnico apenas para iniciar-concluir a temporada. Estou apenas atestando que, culturalmente, é praticamente impossível para um técnico obter tal façanha, e, novamente, preciso citar uma série de fatores para tal:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>Em defesa da atual direção do Náutico, a tolerância com o trabalho de treinadores é bem maior nesta gestão que em qualquer uma pelo menos nos últimos 30 anos. Apesar de não terem conseguido iniciar-concluir uma temporada, é de Gilmar dal Pozzo e Marcio Goiano o recorde de permanência (considerando todo o período a frente do clube, sem interrupção) neste século, com passagens ainda mais duradouras que o próprio Zé Teodoro. Mas mesmo sob uma diretriz mais paciente, não houve sucesso em evitar a demissão de nenhum dos treinadores que iniciaram temporada no clube desde o início da gestão Edno Melo. Roberto Fernandes, responsável pela quebra de um jejum de títulos de 14 anos (o maior da história do clube) foi demitido menos de um mês após conquistar a taça do Pernambucano 2018; Hélio dos Anjos, que sem dúvidas foi o treinador com menos margem de questionamento e mais sucesso obtido ao iniciar uma temporada no clube, também não acabou saindo (ainda que por opção própria).</li><li>Não existe trabalho preventivo no clube para gerenciamento de crise. Os episódios vexatórios envolvendo torcida e atletas nas derrotas nos Aflitos contra Confiança, em 2021, e Retrô, em 2022, demonstram a dificuldade de atuar preventivamente diante de problemas antigos e recorrentes. </li><li> Mesmo em cenários de preferência por continuidade, o clube segue exposto ao interesse do mercado. Em todas as vezes em que o trabalho de início de temporada marcou uma boa continuidade de um projeto oriundo da temporada anterior, o treinador responsável acabou cooptado. Aconteceu com Roberto Fernandes, em 2008; com Alexandre Gallo, em 2013; e poderia ter acontecido com o próprio Hélio dos Anjos, que, sabe-se, estava verbalmente acertado com o Sport horas após deixar o Náutico ao fim do 1º turno da Série B.</li></ul>



<p>Sendo assim, qualquer contrato com uma duração de 15 meses <strong>precisa</strong> ser considerado irresponsável. Isso não significa, contudo, que o clube não possa/deva trabalhar pensando no longo prazo. O uso recorrente (e leviano) da palavra &#8220;planejamento&#8221; motivou muitos dirigentes a assinarem contratos de longo prazo com atletas e jogadores como se, em essência, isso significasse um trabalho consolidado de longo prazo. A dificuldade de entender as implicações de longo prazo de tais contratos e a falta de percepção para entender quando os fazer é comum no futebol local. Para o Náutico, ao menos no quesito treinador, esse momento não chegou. Trabalhar com longo prazo é possível e significa muito mais ter uma tese definida para a contratação de treinadores do que firmar um contrato que dificilmente será cumprido com um deles. Por mais que soe pessimista, o atual patamar cultural do clube demanda que no ato de contratação de um treinador, potenciais substitutos já sejam mapeados.</p>



<p>Por julgar que não é pertinente para o objetivo do texto, não me esmiuçarei na análise do substituto de Hélio dos Anjos, Felipe Conceição. Me limito a dizer que achei uma reposição interessante e a desejar sucesso e vida longa no clube; como tal longevidade é improvável, encerro o texto com mais algumas reflexões:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>Quais foram os fatores que desgastaram o trabalho de Hélio dos Anjos que podem ser trabalhados pela direção do clube para não desgastarem Felipe Conceição?</li><li>Quais formas há de blindar o processo decisório da direção na continuidade de Felipe Conceição da opinião da torcida? (Seguramente, o momento de troca chegará, mas é importante, quando ocorrer, ter certeza de que é a melhor alternativa, evitando um vai e vem tal como ocorreu com Hélio)</li><li>Os objetivos determinados pelo clube à Felipe Conceição são condizentes com o material humano que o clube oferece ao treinador? </li><li>Há hoje uma gestão preventiva da potencial perda de atletas por lesão/transferência ao longo da temporada? Em outras palavras: caso Kieza torne a se lesionar, qual atacante o Náutico buscará no mercado? Se Rhaldney ou Jean Carlos forem vendidos, quais as alternativas mapeadas pelo clube para substituí-los?</li></ul>



<p>A migração para o modelo de SAF sem a decisão interna de profissionalização da estrutura de futebol do clube é apenas um disfarce, uma maquiagem de um amadorismo institucional para um amadorismo travestido. Antes de pensar em SAF, o Náutico (e, naturalmente, diversos outros clubes) precisa pensar seu modo de fazer futebol.</p>
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		<title>Minúcias: por que é tão difícil contratar?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Jan 2022 12:17:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="85" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1-170x85.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1-170x85.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1-600x300.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1-768x384.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: por que é tão difícil contratar? 9">É chegado um momento de limbo na pré-temporada futebolística brasileira, especialmente para os torcedores. A maior parte dos times já tem sua cara formada e novidades até as estreias tendem a ser escassas. As as expectativas estão lapidadas &#8211; não apenas para o debute, mas para todo o ano. Exceto para os adeptos de equipes [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="85" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1-170x85.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1-170x85.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1-600x300.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1-768x384.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_real_madrid_galaticos_1200_1.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: por que é tão difícil contratar? 10">
<p>É chegado um momento de limbo na pré-temporada futebolística brasileira, especialmente para os torcedores. A maior parte dos times já tem sua cara formada e novidades até as estreias tendem a ser escassas. As as expectativas estão lapidadas &#8211; não apenas para o debute, mas para todo o ano. <br><br>Exceto para os adeptos de equipes atualmente ultracapitalizadas (Atlético/MG, Flamengo e Palmeiras), o discurso (e o sentimento) de que é cada vez mais difícil contratar toma lugar. Sobretudo no Nordeste, região munida de menos recursos financeiros e com clubes imersos numa crise que só não é geral por conta do oasis cearense, esse feeling é crescente e &#8220;inflacionado&#8221; foi talvez o adjetivo mais associado à atual janela do mercado da bola. Por que é cada vez mais difícil para seu time contratar <em>bem</em>?<br><br>Há uma <a href="https://en.as.com/en/2017/07/11/soccer/1499771635_718327.html" data-type="URL" data-id="https://en.as.com/en/2017/07/11/soccer/1499771635_718327.html" target="_blank" rel="noopener">famosa história</a> narrada pelo ex-diretor do Real Madrid, Jorge Valdano, na qual Florentino Pérez, magnata com duas gestões à frente do clube merengue, optou por declinar a contratação de Kaká em meados de 2002 (quando o valor de mercado do meia ainda não era dos mais altos) para esperar que o jogador se consolidasse como um dos melhores do mundo e, enfim, comprá-lo (o que aconteceu em 2009, pouco depois de Kaká ser eleito o melhor jogador do mundo em 2007). <br><br>Nos anos 2000, o Real Madrid comprou em escala diversos jogadores recém-aclamados com o prêmio de melhor do mundo, quase que imediatamente após o recebimento do prêmio. O português Figo foi comprado em 2000, logo após ser eleito o 2º melhor do mundo &#8211; menos de 1 ano depois subiu a posição derradeira no ranking. Zidane foi comprado em 2001 após duas nomeações. Em 2002, Ronaldo chegou com o brilho do penta no oriente. Cannavaro veio 4 anos depois, também após um título de Copa. Kaká e Cristiano Ronaldo foram trazidos em em 2009.</p>



<p>Quase 13 anos depois da janela em que o Real Madrid comprou os dois últimos melhores jogadores do mundo, não houve sequer outra vez em que tal movimento tenha se repetido. Isso se deve, principalmente, a polarização do prêmio pela dupla Messi e Cristiano Ronaldo, mas também a uma mudança no funcionamento do mercado da bola que se aplica tanto ao funcionamento opulento de Florentino Peréz quanto ao <em>modus operandi</em> do diretor abnegado do seu time.</p>



<p>Pérez segue sendo o principal tomador de decisões em Madri, mas essas decisões não são as mesmas de 20 anos atrás. Se há duas décadas era possível perceber o potencial de um talento como Kaká, optar por esperar a maturação desse talento e enfim contratá-lo, atualmente a espera é condenada e cada vez mais os principais investimentos no futebol são feitos em jovens com idade entre 17 e 23 anos. As precoces idas de Rodrygo e Vinicius Júnior para o Real Madrid materializam tal alteração na conduta merengue.</p>



<p>Não é difícil entender o porquê dessa nova condução. A formação de conglomerados tais como o City Footbal Group ou as franquias da Red Bull existem com o propósito de identificar o mais cedo possível fenômenos não ainda não percebidos (e, consequentemente, não precificados) e contratá-los. Os times que conseguem realizar tais contratações diferem no objetivo: alguns procuram a revenda, outros o desenvolvimento dentro de uma linha de trabalho e a longevidade daquele talento num time. Se Kaká fosse 20 anos mais novo e sua contratação estivesse sendo debatida agora na Espanha, Florentino Pérez precisaria trazê-lo ou correria o risco de nunca vê-lo jogando por seu time.</p>



<p>Contextualizando tal prática no cenário nacional, essa prática foi comum no Cruzeiro antes do colapso do clube em 2019. Nomes como o de Rony (Palmeiras) e Marinho (Santos) são exemplos de atletas comprados pela Raposa que pouco (ou nunca) jogaram pela equipe. Esses, claro, são raros exemplos de jogadores que despontaram. A maioria das promessas prospectadas e adquiridas (quase sempre em valor pouco apropriado) jamais decolou, resultando em parco retorno técnico e nenhum retorno econômico.</p>



<p>E há um efeito dominó inerente a prática de concentrar o mercado. </p>



<p>Até alguns anos atrás, os grandes times do país eram, comumente, produto de investimentos privados que se provavam prejudiciais aos clubes a médio prazo. O Corinthians que caiu em 2007 era uma pobre sobra do Corinthians da MSI de 2005. O Palmeiras pós-Parmalat precisou esperar mais de 10 anos até a chegada da Crefisa no fim de 2014, com dois rebaixamentos na conta. Nessa época, os grandes times eram apenas isso &#8211; grandes times com <strong>prazo de validade</strong>. Elencos caros montados com base no aglomerado de jogadores de alto nível técnico e já precificados no mercado. A medida que os jogadores envelheciam ou deixavam o clube, era necessário um novo aporte maciço de capital para contratar novos craques, pois não havia trabalho de base ou prospecção de ativos baratos. Projetos insusentáveis.</p>



<p>A impossibilidade de se replicar este cenário no contexto atual pode ser replicado nos dois seguintes exemplos: o Corinthians de 2005 tinha como um de seus principais jogadores o meia Carlos Alberto, então com 21 anos, que em 2004 assinalara um dos gols do Porto na final da Liga dos Campeões contra o Monaco. É possível imaginar qualquer jogador campeão europeu jogando no Brasil no ano seguinte? Voltemos dez anos no tempo, quando Romário retornou ao Brasil para jogar no Flamengo em 1995 logo após ser eleito o melhor do mundo em 94. Plausível na década de 2020?<br><br>A medida que alguns clubes se diferenciaram em demasia no âmbito financeiro, passaram a montar elencos que, além de qualificados, eram numerosos. O Palmeiras de 2018 não precisava investir na compra de Arthur Cabral ao Ceará. O clube começou 2019 com nomes como os de Dudu, Ricardo Goulart, Borja, Deyverson, Willian Bigode e Henrique Dourado na linha ofensiva. Ainda assim, alguns milhões foram investidos na aquisição de Arthur Cabral &#8211; sem que houvesse o menor intento de utilizá-lo regularmente ou emprestá-lo a qualquer time brasileiro. <br><br>Antes de se transferir para o Basel, da Suíça, Arthur Cabral fez apenas cinco jogos com a camisa alviverde. Para o Ceará, qualquer reposição à altura, mesmo com cinco milhões embolsados, era improvável, e para o resto do mercado, era um nome a menos disponível. <br><br>A lei fundamental da economia que trata de oferta e demanda sempre funcionou com base em limitação quantitativa no futebol. O mercado de jogadores é amplo, mas <strong>o mercado de bons jogadores é escasso</strong>, e mais escasso ainda é o mercado de bons jogadores pelos quais seu time pode pagar. E, principalmente, mesmo para os mais privilegiados, o mercado sempre foi impossível de ser absorvido. Com certeza existem diversos bons atacantes por aí, mas isso não é interessante para quem já dispõe de 5 ou 6 atacantes. <strong>Ou ao menos não era</strong>. <br><br>Quando o Palmeiras e seus similares demonstram ao mercado que mesmo que seus elencos já estejam suficientemente preenchidos em todas as posição existe disposição (e capital, obviamente) para comprar jogadores, o preço desses atletas evolui no conceito de FOMO &#8211; <em>Fear of Missing Out</em>. O Palmeiras não teria como saber se Arthur Cabral poderia se tornar um atleta da mais alta prateleira do futebol brasileiro sem utilizá-lo regularmente, inserindo-o em diversos contextos. O Palmeiras não tinha interesse em validar esse potencial. Mas o Palmeiras tem medo. O que acontece se o Flamengo comprá-lo e ele virar o principal atacante flamenguista? Na dúvida, é melhor investir e depois resolver. <br><br>E quando o mercado inflaciona numa ponta, a inflação reverbera até alcançar a outra, tornando os melhores jogadores mais restritos a um grupo reduzido de times. Restrição que aumenta com o surgimento de times com novas propostas (Cuiabá, RB Bragantino) e com novos projetos. Um case interessante é o Athletico/PR.</p>



<p>Em 2006, o Athletico veio ao Nordeste para tirar Givanildo Oliveira do Santa Cruz. O Náutico foi o alvo em 2008 e 2009, com as perdas de Roberto Fernandes e Waldemar Lemos, respectivamente. Ainda que já fosse um time mais estruturado e com um nível de planejamento impensável mesmo nos padrões atuais para a maioria dos principais times do Nordeste, o Athletico concorria basicamente na mesma faixa de mercado dos nordestinos que habitassem a Série A. Em 2007, o Sport comprou ao Athletico o goleiro Cleber, titular da meta do Furacão durante todo o ano de 2006, por R$ 1 milhão. Em que momento do mercado atual é possível pensar no Athletico buscando técnicos de equipes pernambucanas, ou vendendo um jogador amplamente utilizado para um concorrente de divisão no Nordeste?<br><br>Mas o Athletico segue concorrendo com as equipes da região. Em outros veículos. Do início ao fim do ano de 2021, o Náutico insistiu em obter o empréstimo do goleiro Anderson, que disputou a reta final da Série B 2020 pelo clube. A permanência foi negada pois o intento do Athletico era utilizá-lo no Campeonato Paranaense &#8211; <strong>pelo time B do clube</strong>. Vários jogadores que até recentemente compuseram esse mesmo time B estão sendo cogitados no Sport, possivelmente no intuito de obter no rubro-negro o desenvolvimento provido pelo CRB ao atacante Jajá, um dos destaques da Série B 2020. Com poucas exceções, os times do Nordeste concorrem no mercado não com o Athletico/PR, mas com seu time de laboratório.</p>



<p>Uma sugestão de exercício: volte dez ou quinze anos no tempo e compare (preferencialmente sem clubismo) quantos clubes poderiam, numa soma de fatores (recursos, vitrine, momento) estar a frente de seu time no mercado e quantos estão agora. A presença de Cruzeiro, Grêmio e Vasco na Série B agrava a situação. São três clubes que, possivelmente, sempre estiveram à frente do seu no mercado, e o rebaixamento deles pouco impacta no grau de atratividade de mercado dessas equipes pelo fator vitrine &#8211; são times com excessiva exposição. Mas há outros três ocupando o outrora garantido espaço desses três na Série A que, possivelmente, estão à frente do seu time no presente. <br><br>Segue o meu exercício pessoal: quando o Náutico estava na Série B, em 2011 (ano do último acesso do clube à Série A), seguramente haviam 20 times (os da Série A) em melhor posição mercadológica. Desconsiderando a atratividade sazonal do Campeonato Paulista, existiam na Série B outros 7 times que, por uma soma de fatores, estavam à frente mercadologicamente: Sport e Vitória (Nordeste), Goiás (Centroeste), Guarani, Ponte Preta, Portuguesa e São Caetano (São Paulo).  Numa abordagem crua, é possível dizer que, em 2011, o Náutico fosse o 28º time em posição de mercado no país.</p>



<p>Estando nesta mesma Série B em 2022, o cenário é diferente. Há na segunda divisão alguns times irrefutavelmente acima em patamar mercadológico: Cruzeiro, Grêmio e Vasco, compondo a trinca de mais visibilidade, e os recém-rebaixados Bahia e Sport. A dupla alagoana CRB e CSA convive com um presente bem mais organizado e possui folhas mais altas. Guarani, Ponte Preta e Novorizontino, filiados à federação mais rica do país, são outros munidos de mais receitas. É claro que há pontos de debate: a vitrine de se jogar um Campeonato Paulista pelo Novorizontino é de fato maior que jogar a Copa do Nordeste pelo Náutico? No mínimo, podemos dizer que são clubes do mesmo patamar. Tais como clubes que possuem forte e recorrente injeção de capital, como Brusque, Operário Tombense. E há ainda fatores limitadores, como o time de transição do Athletico/PR, a existência do Campeonato Brasileiro Sub-23 que limita o interesse dos clubes mais abastados em emprestar seus jovens jogadores inutilizados. O potencial de mercado do Náutico é bem menor se comparado com este mesmo ponto da década passada.<br><br>Cada vez mais é menos provável que sobrem bons jogadores nos últimos dias de janela do mercado (tal como este) para seu time do coração. <br><br>Um advento que potencializa ou minimiza esta competição e a inflação consequente é a análise de mercado. Clubes que a utilizam bem e agem estrategicamente conseguem maior assertividade, economia e agilidade. Se seu clube aderiu à tal metodologia, é provável que esteja colhendo, ou venha a colher muito em breve, resultados. Caso não, talvez mesmo clubes abaixo deles no seu &#8220;ranking atual de atratividade&#8221; estejam executando uma janela &#8220;melhor&#8221;.<br><br>Utilizei aspas pois categorizar o mercado como melhor ou pior, neste momento, é imprudente. A assertividade de mercado é baseada não nos primeiros jogos ou mesmo no primeiro campeonato de uma determinada equipe. É baseada no ano, ou mesmo em alguns anos, a depender do projeto concebido. <strong>A reação aos primeiros resultados é um fator primordial na percepção da adequação do mercado às demandas percebidas no final da última temporada</strong>. Há uma lista razoável de razões pelas quais uma equipe pode não performar bem num início de temporada. Dirigentes, executivos e alguns treinadores costumam apelar para reformulações, pois dispensar atletas e contratar substitutos é a forma mais fácil de responder aos anseios imediatos do torcedor, mas tais reformas impossibilitam a avaliação da causa da má performance.</p>



<p>Acostumar-se a dificuldade de se contratar jogadores consagrados ou altamente visados no mercado é recomendável, e o melhor recurso para mensurar o que é possível esperar do seu time a médio prazo é buscar entender se há lógica na atividade de mercado em cada janela. Sobre isto, escrevi um <a href="https://ne45.com.br/category/analistas/rodolpho-moreira/" data-type="URL" data-id="https://ne45.com.br/category/analistas/rodolpho-moreira/">texto</a> com algumas provocações na última semana.</p>



<p> </p>
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		<title>Minúcias: tese de investimentos em clubes de futebol</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Jan 2022 12:15:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="85" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1-170x85.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1-170x85.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1-600x300.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1-768x384.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: tese de investimentos em clubes de futebol 11">A reta final do ano de 2014 apresentava ao Fortaleza um desafio considerável. Estagnado na Série C e marcado por desventuras em série, o tricolor precisaria impedir o pentacampeonato estadual do rival Ceará (à época na Série B) munido de recursos menores e uma vitrine mais fraca. Para combater o favoritismo do rival, o então [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="85" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1-170x85.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1-170x85.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1-600x300.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1-768x384.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2022/01/2022_marcelo_paz_fortaleza_divulgacao_1200_1.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: tese de investimentos em clubes de futebol 12">
<p>A reta final do ano de 2014 apresentava ao Fortaleza um desafio considerável. Estagnado na Série C e marcado por desventuras em série, o tricolor precisaria impedir o pentacampeonato estadual do rival Ceará (à época na Série B) munido de recursos menores e uma vitrine mais fraca.<br><br>Para combater o favoritismo do rival, o então diretor de futebol do clube, Marcelo Paz, optou por uma estratégia de mercado muito particular:&nbsp;<strong>contratar jogadores nascidos no estado cearense e/ou familiarizados com a rivalidade local</strong>, que tivessem ciência do peso daquele desafio e contagiassem duradouramente o restante do grupo com o ímpeto pelo seu alcance.<br><br>É difícil categorizar a estratégia de Marcelo Paz como uma&nbsp;<em>tese de investimento</em>, essencialmente por sua limitação. Quantos bons jogadores de futebol (suficientemente bons para justificarem o investimento) são oriundos do Ceará? E, sobretudo, quantos caberiam no limitado bolso do Fortaleza?</p>



<p>À época, o expoente esportivo futebolístico do estado talvez fosse o atacante Osvaldo, inviável para os padrões tricolores – após um 2014 com 60 jogos pelo São Paulo, o jogador fora contratado pelo Al-Ahli Jeddah. Percebe-se, então, que na verdade&nbsp;<strong>a estratégia elaborada por Marcelo Paz fomentava muito mais uma reserva (ínfima) de mercado do que uma segmentação</strong>: jogadores suficientemente bons nascidos no estado do Ceará e viáveis para o momento do Fortaleza.<br><br>Mesmo com a limitação amostral considerável, Marcelo Paz encontrou um número surpreendente de jogadores para reforçar o plantel, todos dentro do setor de meio campo:<br>–&nbsp;<a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=6366&amp;epoca_id=144" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Dudu Cearense</a>&nbsp;e&nbsp;<a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=137508&amp;epoca_id=144" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pio</a>, volantes, ambos nascidos em Fortaleza<br>– o curinga&nbsp;<a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=85805&amp;epoca_id=144" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Everton</a>, que ao longo da carreira atuou como lateral, volante, meia e ponta, natural de Maranguape<br>– e&nbsp;<a href="https://www.ogol.com.br/player.php?id=34547&amp;epoca_id=144" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Daniel Sobralense</a>, meia, oriundo, como é de se esperar, de Sobral<br><br>Se a movimentação de mercado foi decisiva ou não para o título tricolor, é difícil dizer. Aspectos tangíveis como o gol de Daniel Sobralense no jogo do título podem ser apontados, mas somente forçosamente podem ser associados ao local de nascimento do jogador. A estratégia de Marcelo Paz foi meramente baseada no componente emocional – encontrar jogadores capazes de transmitir ao grupo o sentimento local e tornar esse sentimento um diferencial competitivo. Ainda que sem dúvidas o dirigente tenha procurado por jogadores qualificados, não pareceu haver filtros associados à característica técnica e ao repertório tático desses atletas.<br><br>Ainda assim, esse exemplo distante do Fortaleza 2015 é interessante por dois motivos.</p>



<p>O primeiro é a evolução conjunta tanto do clube, que do ostracismo na terceira divisão nacional é agora a sensação da região Nordeste com uma histórica classificação à Libertadores, quanto do dirigente Marcelo Paz, estabilizado como um presidente com pilares de mercado bem definidos – continuidade de treinadores e busca por jogadores capazes de exercer diversas funções no campo, por exemplo.</p>



<p>O segundo é aplicar parte do racional de Marcelo Paz para montar o Fortaleza 2015 no mercado atual, de forma a entender se existem teses de investimento para formação de elenco e se sim, quais são elas.<br><br>O viés emocional, balizador da atuação de Paz no mercado de 2015, sem dúvidas deve ser considerado.&nbsp;<strong>Com os jogadores cada vez mais expostos em suas vidas através das redes sociais e calendários que exigem rápida recuperação psicológica entre um jogo e outro, pensar a dosagem do elenco com líderes de grupo que possam auxiliar os companheiros é pré-requisito.</strong>&nbsp;O porém é que os principais indicadores para nortear uma contratação seguem sendo técnicos, ainda que devam variar de clube para clube com base no modelo de jogo vigente ou a ser implementado.<br><br>Com o fim das férias e o início da pré-temporada, é possível dizer que seu time já possui um modelo de jogo implementado a ser consolidado nesta pré-temporada? Ou ao menos sabe que modelo de jogo quer desenvolver ao longo de 2022? Se sim, a atividade de mercado (escolha do treinador, renovações, contratações, uso previsto da base) foi/está sendo condizente com as necessidades do modelo?<br><br>O diagnóstico de tais necessidades é particular. Para modelos de jogo reativos, os Key Performance Indicators (KPIs) do modelo irão diferir radicalmente de modelos propositivos, havendo ainda mais mutabilidade desses KPIs com base nos subprincípios de cada modelo de jogo.</p>



<p><br>Entretanto,&nbsp;<strong>não necessariamente os KPIs do atletas definidos em certa estratégia de mercado irão divergir</strong>&nbsp;– o que será diferente será a aplicação das potencialidades de cada atleta dentro do modelo previsto.<br><br>Some ao componente psicológico e as demandas técnico-táticas:</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>Necessidades físicas</strong>&nbsp;– que também variam de acordo com o modelo. Quantos estímulos de alta velocidade suprem a aplicação desse modelo numa determinada função? Quantos km o atleta médio de uma determinada posição corre em certa plataforma de jogo?</li><li><strong>Urgências financeiras</strong>. Seu clube precisa vender jogadores para pagar as contas imediatas? Essa é uma exigência habitual? Se sim, os jogadores contratados (ou aqueles remanescentes de quem se espera ver uma maior minutagem) possuem potencial de venda/revenda? Para quais mercados?<br><br>A melhor maneira de procurar entender se existe uma tese de investimento em voga no seu clube é&nbsp;<strong>procurar sinergia entre as contratações feitas nesta janela e as da última temporada.</strong>&nbsp;Há uma lógica estabelecida ou os nomes parecem aleatórios em qualquer frente analisada? Se a aleatoriedade parece inegável, o último teste (para o caso de uma tese de investimento estar sendo iniciada neste momento) é averiguar o contexto. O mercado tem sido condizente com os desafios da equipe na temporada? Existe suficiente profundidade no elenco?&nbsp;<strong>O que o mercado desta janela pavimenta para o mercado da janela de meio de ano?</strong><br><br>Como se vê, o processo de montagem de um elenco é multifacetado. E a evolução dessa visão por Marcelo Paz/Fortaleza é nítida. Tomemos como exemplo a recente contratação do zagueiro Wagner Leonardo, emprestado pelo Santos ao tricolor. O jogador vem com contrato até meados do primeiro semestre de 2023 com opção de compra vinculada – ou seja, em pouco mais de um ano, o Fortaleza precisará optar por realizar ou não um investimento milionário para adquirir em definitivo o jogador. Seria cômodo esperar até lá,&nbsp;<strong>torcendo para que a performance do atleta fosse satisfatória o suficiente para motivar a aquisição mas não ao ponto de despertar o interesse, por exemplo, de concorrentes europeus que possam oferecer ao jogador mais do que o Fortaleza poderá pagar</strong>. É preferível, então, trabalhar com a mitigação do risco (considerável) de o Fortaleza precisar repor a saída de Wagner Leonardo em 2023, em cenários hipotéticos variados:</li></ul>



<p><br>i. O jogador ter performance aquém do esperado pelo clube;</p>



<p>ii. O jogador ter performance além do esperado pelo clube mas ser assediado por times com capacidade financeira mais que o Fortaleza;</p>



<p>iii. O jogador sofrer uma grave lesão;</p>



<p>iv. O jogador ter performance além do esperado pelo clube, se tornar uma peça-chave no modelo de jogo desenvolvido e ser uma tolice não ter um reserva pronto (e barato) disponível para quando não for possível contar com Wagner.<br><br>Possivelmente de olho em futuros alternativos similares aos descritos, o Fortaleza recentemente emprestou o zagueiro João Paulo ao Náutico, uma cessão que tende a se provar inteligente, mais uma vez, por uma lista de motivos:</p>



<p><strong>a.&nbsp;</strong>O Náutico possivelmente propiciará ao jogador uma minutagem robusta que dificilmente seria ofertada no Fortaleza, visto que João Paulo é um zagueiro similar a Wagner Leonardo em altura, pé preferencial e forma de jogar;</p>



<p><strong>b.&nbsp;</strong>O Náutico foi o clube que há menos de ano desenvolveu Wagner Leonardo e o expôs ao mercado. O treinador responsável pela sua evolução, Hélio dos Anjos, segue no clube e pode proporcionar um desenvolvimento similar, preparando o atleta para o Fortaleza;</p>



<p><strong>c.</strong>&nbsp;Para o caso de Wagner não render no Fortaleza e deixar o clube em 2023, o clube talvez tenha uma reposição imediata já pronta para jogar; e ainda que Wagner se credencie como titular incontestável em sua posição e venha a ser adquirido, o Fortaleza pode receber um suplente ideal e com margem de evolução.<br><br>Notavelmente, a percepção de mercado do Fortaleza evoluiu na mesma proporção que o clube entre 2015 e 2022, e no auge de sua história tricolor parece haver conciliação do desfrute do momento com o planejamento para estendê-lo. E como anda o seu time?&nbsp;<strong>O que é possível inferir dos discursos e das práticas de seus dirigentes no mercado?</strong></p>
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		<title>Minúcias: o valuation de Wallace Pernambucano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 May 2021 11:20:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America-170x96.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Wallace Pernambucano deixa o América-RN para defender o Santa Cruz" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America-170x96.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America-600x338.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America-768x432.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: o valuation de Wallace Pernambucano 13">Na última semana, cresceu o rumor do acerto entre o Santa Cruz e o atacante Wallace Pernambucano, ex-Náutico e atualmente no América/RN. O NE45 cravou o acordo e noticiou a chegada de Wallace ao Arruda após o Campeonato Potiguar, uma condição que deve ser antecipada pois é bastante provável a eliminação precoce do alvirrubro potiguar [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America-170x96.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Wallace Pernambucano deixa o América-RN para defender o Santa Cruz" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America-170x96.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America-600x338.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America-768x432.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/02/Wallace_Pernambucano_America.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: o valuation de Wallace Pernambucano 14">
<p>Na última semana, cresceu o rumor do acerto entre o Santa Cruz e o atacante Wallace Pernambucano, ex-Náutico e atualmente no América/RN. <a href="https://ne45.com.br/2021/05/21/santa-cruz-chega-a-acerto-com-wallace-pe-e-atacante-desembarca-no-arruda-apos-o-fim-do-potiguar/" data-type="URL" data-id="https://ne45.com.br/2021/05/21/santa-cruz-chega-a-acerto-com-wallace-pe-e-atacante-desembarca-no-arruda-apos-o-fim-do-potiguar/" class="rank-math-link">O NE45 cravou o acordo e noticiou a chegada de Wallace ao Arruda após o Campeonato Potiguar</a>, uma condição que deve ser antecipada pois é bastante provável a eliminação precoce do alvirrubro potiguar no certame estadual já nesta semana. Ainda que não seja uma contratação oficializada pelo clube, debater a possibilidade da chegada do &#8220;Tanque&#8221; ao tricolor é importante para entender tanto a pretensão dos corais em obtê-lo quanto para medir se essa é uma pretensão adequada. De fato, o fato de ainda não ser um reforço consumado do Santa Cruz é útil para as pretensões deste exame, visto que será palpitado, ao fim do texto, se a potencial investida é um acerto ou um erro da cúpula tricolor.</p>



<p>Uma observação prévia necessária ao leitor que possa não estar familiarizado com a linha editorial deste que vos escreve. Os textos em minha página costumam ter um viés pautado na análise de desempenho e mercado, área de atuação exercida ao longo de um ano no próprio América/RN. O intuito do texto é explicitar maneiras de se pesar um nome que vão além dos scouts básicos e das inferências mais óbvias.</p>



<p>Inicio a análise com a tentativa de compreender a dor de mercado que faz o Santa Cruz buscar um centroavante para seu plantel. A incapacidade demonstrada pelos outros atacantes de suprir o papel artilheiro ora exercido por Pipico, em franco declínio, motiva a diretoria tricolor a tentar comprar uma cota garantida de gols; em Wallace, o Santa procura um atleta que chegue para melhorar os inexpressivos números ofensivos. É a solução simples para um problema padrão: durante uma escassez de gols, tragam um artilheiro.</p>



<p>Mergulhemos, então, na avaliação da capacidade de Wallace Pernambucano de garantir a cota de gols desejada pelo Santa Cruz. O atacante, que durante a maior parte da carreira foi meia, vive uma consolidação na posição de centroavante: foi o artilheiro da Série D em 2020, com 12 gols, e é atual artilheiro do Campeonato Potiguar com 13 gols em 13 jogos. Números expressivos, mas que precisam ser contextualizados. Listo, abaixo, algumas considerações relevantes:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>Os atacantes são os atletas mais valorizados no futebol. Dentro da posição mais valorizada, buscar atletas valorizados tende a ser um negócio oneroso. </li><li>Desempenho não é algo portátil. A busca por uma cota de gols pode ser perigosa quando se pensa em números frios. <em>Os números de Wallace são os números de Wallace no América</em>. Diversos são os casos de clubes que investiram em artilheiros na expectativa pela reprodução dos gols marcados num determinado contexto e acabaram colhendo frustração. Podemos citar os casos recentes de Salatiel, um dos artilheiros da Série C 2019 pelo Sampaio Corrêa com 8 gols e que, ao longo de meses defendendo o Náutico, marcou apenas 2. Um atleta que dividiu a  artilharia com Salatiel foi Negueba, que assinalou 8 gols pelo Globo e foi contratado por Vitória/BA e Santa Cruz sem conseguir deixar sua marca, retornando ao Globo.</li><li>Quando se investe em atacantes de sucesso recente, o <em>retorno sobre o investimento</em> tende a ser colhido no médio prazo. Avaliemos o próprio Wallace PE, no América/RN. Wallace chegou ao alvirrubro potiguar com grande pompa, egresso do Náutico campeão da Série C 2019. Contudo, os números de Wallace não eram significativos: apesar de ter jogado todos os 24 jogos do alvirrubro pernambucano, o &#8220;Tanque&#8221; anotou apenas 3 gols ao longo da campanha. Até a chegada ao América, a temporada com mais gols de Wallace havia sido justamente a de 2019 (12, distribuídos entre Campeonato Pernambucano, Copa do Nordeste e Série C). O América contratou Wallace esperando um artilheiro, e acabou vivendo grande frustração inicial: nos 26 primeiros jogos de Wallace com a camisa do Dragão, apenas 7 gols foram marcados, sendo 3 deles de pênalti. Somente após se ver minado pelos momentos artilheiros de Tiago Orobó (atualmente no Londrina), entre janeiro e março/20, e de Zé Eduardo (Cruzeiro), de agosto à setembro, é que Wallace encontrou, consistentemente, o caminho das redes.</li><li>Contexto é primordial. Os gols marcados por Wallace, na Série D, vieram após uma assimilação do plantel americano do modelo de jogo do então treinador Paulinho Kobayashi, que primava por viradas de jogo constantes e que acabavam, constantemente, por deixar os jogadores desmarcados nos lados do campo. Wallace se valeu deste expediente e anotou tentos diversos oriundos dos cruzamentos de Everton Silva (lateral-direito) e Romarinho (volante). Há similaridade entre o modelo de jogo de Kobayashi e o de Bolívar? Esta é a pergunta que deve(ria) basear todo o interesse em Wallace Pernambucano. E, uma vez respondida, ainda é necessário considerar: dos 13 gols marcados no Campeonato Potiguar 2021, 5 foram de pênalti; o número absoluto é expressivo, mas num campeonato de baixíssimo nível técnico, contra times que estão longe do nível de Paysandu, Floresta, Ferroviário e Volta Redonda, por exemplo. Esse desnível precisa ser parte da avaliação, visto que a busca por uma cota de gols não pode ser confundida com a importação de gols: contratar Wallace Pernambucano não garante, no Santa Cruz, a reprodução dos números vistos no América/RN.</li></ul>



<p>Encerro, parcialmente, as considerações. Há outras a serem feitas, mas que precisam ser precedidas pela inserção de um termo pouco utilizado no futebol: <em><strong>valuation</strong>.</em> No ambiente corporativo, a expressão compreende a avaliação de um determinado ativo a fim de determinar seu valor. É possível dizer que Wallace Pernambucano é um ativo humano do clube que o tem em seu plantel. Na matéria supracitada do NE45 que antecipa o acordo entre Wallace Pernambucano e o Santa Cruz, foi exposto o valor salarial definido pelas partes: aproximadamente R$ 40.000,00. A partir deste número, o valuation será realizado para estimar a faixa salarial adequada para Wallace Pernambucano, levando em consideração as necessidades dos corais. (O valuation poderia, ainda, ser feito para definir um valor de mercado referente à multa contratual do atleta; como há no contrato do jogador com o América/RN uma cláusula liberatória para clubes acima da Série D, e também em função da idade elevada do jogador, não tentarei estimar o valor de compra de Wallace Pernambucano).</p>



<p>Feita essa explanação e levando em conta as considerações prévias, inicio o valuation de Wallace Pernambucano considerando o histórico de seu salário. No Náutico, de 2018 a 2019, recebia valores mensais na faixa dos R$ 30.000,00. Condição mantida quando de seu empréstimo ao Brasil de Pelotas, na reta final da Série B 2018, e quando de sua contratação pelo América/RN no fim de 2019. Wallace chegou ao dragão potiguar com o maior salário do elenco, acrescido de um auxílio moradia, condição que não destoava da vivida no Ceará, em 2017. São 4 temporadas habitando a mesma faixa de mercado: proventos jamais abaixo dos R$ 30.000,00 e sem ultrapassar os R$ 35.000,00.</p>



<p>Novo adendo: há uma diferença entre o valuation e o preço, que pode ser ilustrada didaticamente com exemplos do ramo imobiliário. Um imóvel pode ser avaliado em R$ 1.000.000,00 de acordo com sua metragem, sua localização e outros fatores que balizam a avaliação; ainda assim, é possível que seu preço de venda venha a ser menor ou maior de que o milhão citado, por motivos variados:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>Pode ser menor caso o proprietário precise se desfazer do imóvel com rapidez para obter liquidez, forçando uma aceitação a propostas abaixo do valor de mercado estipulado. O poder de definição do preço, neste caso, tende a ser do comprador; </li><li>Pode ser maior caso o potencial comprador precise de um imóvel com as características específicas daquele em posse do proprietário e não existam outras alternativas similares. Caso o dono do imóvel tenha ciência dessa adequação, o poder de definição do preço tende a ser do vendedor.</li></ul>



<p>Fiz este adendo pois ainda que o mercado tenha posicionado Wallace como um atleta avaliado em R$ 30.000,00/mês, determinados contextos podem inflacionar ou deflacionar este posicionamento. Repito, o intuito do material é medir se os R$ 40.000,00 que o Santa Cruz está disposto a dispender são adequados dentro da contextualização de clube e atleta.</p>



<p>Recapitulemos os pontos-chave elencados: carente de um homem-gol e buscando investir numa cota garantida de bolas na rede, o Santa Cruz procura um atacante, posição naturalmente inflacionada, cujo desempenho recente provoca uma tendência inflacionária em seu preço. Esse desempenho foi produzido, na Série D, dentro de um modelo de jogo que gerava espaços nos corredores laterais, com os jogadores que povoavam esses corredores sendo especialistas em bolas cruzadas e, no Campeonato Estadual, diante de adversários cujo nível técnico não serve para balizar as dificuldades que serão encontradas no Santa Cruz na Série C. Nesta competição, inclusive, a última participação de Wallace foi marcada por apenas 3 gols em 24 jogos. </p>



<p>Realizada a contextualização do jogador, avaliemos as condições do Santa Cruz. O clube, em sua quarta temporada consecutiva na Série C, está longe de se ver calibrado em recursos. Mesmo assim, há no elenco um considerável grupo de jogadores cujo patamar salarial se assemelha ao de Wallace Pernambucano: Derley, Chiquinho, Pipico e o recém-contratado Rondinelly. A adição de mais R$ 40.000,00 a uma folha já cara para o perfil da competição, por si só, é um risco, mas há um fator multiplicador: a existência de dois jogadores no elenco que jogam na mesma posição. </p>



<ul class="wp-block-list"><li>O recém-contratado Adriano &#8220;Michael Jackson&#8221;, egresso da Jacuipense. Famoso pelos gols no Bahia na Série B de 2010, foi trazido na leva derradeira que representou o all-in dado pelo Santa Cruz para ter um calendário preenchido no início de 2022. A busca tão precoce por um novo centroavante mostra que o atleta é visto como uma incógnita, o que suscita a questão: por que foi contratado? Sem Adriano no elenco, a margem para contratação de um novo centroavante seria maior. Inclusive, na véspera da publicação deste post, surgiu o rumor de uma possível saída do atacante, negada pelo executivo de futebol coral, Fabiano Melo.</li><li>Pipico, grande xodó coral nas últimas temporadas. Há uma considerável derrocada do atleta na atual temporada, e sem dúvidas este é um ponto de latente preocupação. Entretanto, buscar um melhor entendimento no tocante a tal declínio não seria um investimento menor e mais assertivo? Recuperar um jogador já testado, e que possui, na Série C, números melhores que o próprio Wallace, parece uma alternativa mais inteligente para um clube cuja economia deve(ria) ser prioridade.</li></ul>



<p>Somados os contextos, passemos ao diagnóstico. Baseado em fundamentos de mercado já explicitados, acredito que a possibilidade da contratação de Wallace Pernambucano pelo Santa Cruz representa um erro característico dos gestores de futebol que enxergam o desempenho como algo portátil, como se gols pudessem ser importados. O alto investimento poderia ser justificado caso ou não houvessem jogadores numa quantidade suficiente para a posição OU atletas de um patamar salarial parelho, como é o caso de ao menos outros quatro atletas no plantel. A soma desses cenários torna a possibilidade de contratação, sobretudo no molde financeiro previsto, contraproducente.</p>



<p>No valuation, o patamar de R$ 30.000,00 mensais na qual foi pautado o salário de Wallace Pernambucano nos últimos anos é acrescido de aproximadamente mais R$ 10.000,00, um suplemento oriundo da fase artilheira vivida pelo jogador no América/RN. As considerações já feitas à respeito tanto do modelo de jogo implantado na temporada 2020 quanto do baixo nível competitivo vivido em 2021 são ofensores ao acréscimo citado. O Santa Cruz poderia se valer de abordagens de negociação voltadas para a manutenção do salário no valor &#8220;habitual&#8221; explorando, por exemplo, a proximidade da residência do atacante, natural de Escada/PE, e o Recife, além da vitrine mais valiosa da Série C em comparação à D. Contudo, para o autor, em virtude da configuração do plantel tricolor, tal investimento ainda seria inadequado. Obviamente, esta é uma leitura que pode vir a ser invalidada, caso o Santa Cruz venha, de fato, a oficializar a contratação de Wallace e este consiga ter um desempenho que o consagre no clube coral. A meta desta publicação não é cravar (e nem torcer para) o insucesso de Wallace Pernambucano como jogador do Santa Cruz; apenas expor uma avaliação, baseada em critérios e fundamentos de mercado, que indicam uma movimentação incoerente de acordo com a estrutura, os anseios e as necessidades tricolores. </p>
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		<title>Minúcias: O Método Bacardi</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 May 2021 12:45:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></category>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34-170x96.jpeg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34-170x96.jpeg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34-600x338.jpeg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34-768x432.jpeg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34.jpeg 1280w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: O Método Bacardi 15">2005. No ano do centenário do Sport, um domínio tricolor em Pernambuco. O Santa Cruz foi a equipe dominante naquela temporada, vencendo o Campeonato Pernambucano ao conquistar os dois turnos em campanha composta por quinze vitórias, dois empates e apenas uma derrota, produto de um time que emplacou oito nomes na Seleção do Campeonato e [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34-170x96.jpeg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34-170x96.jpeg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34-600x338.jpeg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34-768x432.jpeg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/WhatsApp-Image-2021-05-13-at-10.16.34.jpeg 1280w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: O Método Bacardi 26">
<p>2005. No ano do centenário do Sport, um domínio tricolor em Pernambuco. O Santa Cruz foi a equipe dominante naquela temporada, vencendo o Campeonato Pernambucano ao conquistar os dois turnos em campanha composta por quinze vitórias, dois empates e apenas uma derrota, produto de um time que emplacou oito nomes na Seleção do Campeonato e que teve no seu principal jogador, Carlinhos Bala, o craque do torneio.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1124" height="371" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-1.png" alt="Posts" class="wp-image-26624" title="Minúcias: O Método Bacardi 16" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-1.png 1124w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-1-600x198.png 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-1-170x56.png 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-1-768x253.png 768w" sizes="(max-width: 1124px) 100vw, 1124px" /><figcaption>Seleção do Campeonato Pernambucao 2005 | <a href="http://blogs.diariodepernambuco.com.br/esportes/2013/05/04/todas-as-selecoes-oficiais-do-campeonato-pernambucano/" class="rank-math-link" target="_blank" rel="noopener">Blog de Cassio Zirpoli</a></figcaption></figure>



<p>Na Série B, o acesso foi obtido em campanha memorável, liderando a primeira fase e o primeiro quadrangular, ficando há apenas dois pontos do Grêmio na fase decisiva. Se inserido no regulamento adotado na edição consecutiva, com 20 equipes se enfrentando em dois turnos, o grupo liderado por Givanildo Oliveira dificilmente perderia o título.</p>



<p>Membros diversos do plantel tricolor obtiveram reconhecimento do mercado num curto espaço de tempo. O volante Andrade foi contratado pelo Vasco ainda no fim de 2005, e Rosembrick e Carlinhos Bala foram transferidos (respectivamente) para Palmeiras e Cruzeiro ao longo de 2006, ano em que Givanildo Oliveira acabaria contratado pelo Athletico/PR.</p>



<p>Um ponto crucial para o escopo desta análise é o retrospecto tricolor em clássicos naquela temporada. Ao contrário de outras praças nordestinas onde há monopolização da rivalidade num único embate (Bahia x Vitória em Salvador, Ceará x Fortaleza em Fortaleza), no Recife há uma trinca de dérbis. Esta divisão em três times confere ao futebol de Recife uma particularidade que registro aqui para que seja resgatada ao longo do texto: <em>no mínimo, sempre haverá uma torcida na condição espectadora.</em> Uma final de Campeonato Pernambucano só pode ser disputada entre duas equipes, de forma que numa decisão protagonizada por Sport e Santa Cruz, resta ao torcedor do Náutico o conforto do sofá. Em 2005, oito clássicos foram disputados pelos corais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1290" height="622" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-4.png" alt="Posts" class="wp-image-26628" title="Minúcias: O Método Bacardi 17" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-4.png 1290w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-4-600x289.png 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-4-170x82.png 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/05/image-4-768x370.png 768w" sizes="(max-width: 1290px) 100vw, 1290px" /></figure>



<p>Os danos infligidos pelo Santa Cruz ao Náutico tiveram impacto maior que ao Sport. Os rubro-negros impediram a vitória tricolor em duas ocasiões e foram derrotados uma única vez, enquanto os alvirrubros, <em>num recorte ainda maior de jogos</em>, tiveram aproveitamento nulo, com cinco dos três revezes sofridos no estádio dos Aflitos. Esse retrospecto superlativo deveria, <em>em tese</em>, ter criado uma forte impressão do Santa Cruz de 2005 sobre o Náutico, grande presa coral naquele ano. Mas o que os anos que vieram demonstraram foi um maciço interesse por parte dos dirigentes rubro-negros sobre atletas daquele elenco tricolor: entre 2005 e 2008, sete jogadores com passagem pelo Santa Cruz de 2005 foram contratados pelo Sport. Mesmo Givanildo Oliveira, treinador, esteve na movimentação mercadológica leonina no período citado, tendo sido contratado como técnico no segundo semestre de 2006.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://cdn.bitrix24.com.br/b13707761/landing/e89/e89d3e93c5afd048734cbf9fd48188b0/4_1x.png" alt="Posts" title="Minúcias: O Método Bacardi 18"></figure>



<p>A contratação de jogadores com histórico em equipes rivais não é um expediente restrito ao &#8220;<em>Circuito Recifense</em>&#8220;. No Nordeste, no Brasil e no mundo variados atletas vestiram camisas de agremiações antagonistas, mas não é apenas na indústria esportiva que ocorre a busca pela&nbsp;<em>portabilidade da performance</em>, termo cunhado por Boris Groysberg, estudioso da Harvard Business School e autor de&nbsp;<em>Chasing Stars</em>, obra em que Groysberg aborda a chamada &#8220;portabilidade da performance&#8221;, uma impressão amplamente aceita nas mercancias capitalistas e motor de diversos investimentos mal-sucedidos. Em profunda investigação mensurando o investimento de empresas do mercado financeiro em executivos que vinham performando eficazmente em determinadas companhias, o autor mostra como o intuito dos <em>headhunters</em> é passível de fracasso pelo credo no desempenho como algo portátil. Esse é um dessaber que, no futebol, permeia toda a cadeia da indústria, e que originou o projeto mais perdulário já visto: o Real Madrid dos <em>galácticos</em>.</p>



<p>os merengues, liderados pelo magnata Florentino Pérez, realizaram a então transferência mais cara da história ao desembolsar 60 milhões de euros pelo português Luís Figo; no ano seguinte, o Real Madrid quebrou seu próprio recorde investindo € 76 milhões em Zidane. Até 2005, anualmente um novo galáctico era trazido para encorpar o estelar elenco madridista:&nbsp;</p>



<ul class="wp-block-list"><li>2002: Ronaldo &#8211; € 45 milhões pagos à Internazionale</li><li>2003: David Beckham &#8211; € 30 milhões pagos ao Manchester United</li><li>2004: Michael Owen &#8211; $ 15 milhões pagos ao Liverpool</li><li>2005: Robinho &#8211; € 12 milhões pagos ao Santos</li></ul>



<p>O conceito de montagem de elenco de Florentino Pérez é baseado num acompanhamento passivo do futebol comum aos dirigentes&nbsp;<em>voluntários</em>, amantes naturais do jogo, torcedores de seus clubes e ansiosos de escrever seus nomes na história das entidades a qual se dedicam com títulos.&nbsp;<em>Mesmo quando não há jogo de seus times, o interesse pelo futebol motiva os dirigentes a assistirem jogos de outras equipes, principalmente se forem seus concorrentes ou rivais históricos</em>. O tempo livre de Florentino Pérez direcionado para o acompanhamento de oponentes do Real Madrid na Espanha e na Europa permitia a identificação dos principais jogadores das equipes mais qualificadas do continente. Havia o entendimento do cartola de que a reunião desses craques num conjunto resultaria na multiplicação de seus talentos &#8211; uma crença implícita na portabilidade da&nbsp;<em>performance</em>, conceito cego ao&nbsp;contexto.&nbsp;<em>O desempenho de um indivíduo depende apenas em parte de sua capacidade individual</em>, sendo também produto de fatores institucionais, tais como a cultura organizacional e os recursos disponíveis. Avaliemos o caso de David Beckham: o contexto no qual o astro estava inserido no em Manchester divergia por completo do que seria encontrado em Madri.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://cdn.bitrix24.com.br/b13707761/landing/e0f/e0faa77073438ae5abcd3dc6408b689a/7_1x.png" alt="Posts" title="Minúcias: O Método Bacardi 19"></figure>



<p>O futebol pernambucano integra uma galáxia menos abastada se comparada à constelação de estrelas do alto escalão europeu, e mesmo o&nbsp;<em>gap</em>&nbsp;financeiro que separa o Real Madrid do&nbsp;<em>Trio de Ferro</em>&nbsp;de Recife não impede o compartilhamento de práticas amadoras na condução do futebol. Em meados de 2020, antes da propagação pandêmica do coronavírus, o Sport anunciou a contratação do meia Philip, um dos destaques do Afogados/PE na temporada e, mais especificamente, na partida contra o Atlético/MG que acabou eliminando o Galo da Copa do Brasil. Questionei em um grupo de jornalistas e estudiosos do futebol do qual faço parte que opinião tinham a respeito daquele movimento do time rubro-negro, e uma resposta em particular me chamou atenção:</p>



<p class="has-text-align-center"><strong><em>Contratação de presidente bebendo Bacardi e vendo jogo quarta à noite.</em></strong></p>



<p>A frase, direcionada ao presidente do Sport, Milton Bivar, serviu para dar nome a uma ideia já elaborada em meus estudos ainda carente de&nbsp;<em>nomenclatura</em>.</p>



<p>Dirigentes amadores podem entender de futebol, mas não necessariamente (a bem dizer,&nbsp;<em>muito raramente</em>) o estudam.&nbsp;<em>Que jogador contratar?</em>&nbsp;é um questionamento válido tanto para os profissionais quanto para os amadores no futebol, e a diferença na ação reside na metodologia empregada. Atualmente existem processos variados e baseados em vivências de mercado contemplando a formação de elencos; na contracorrente destes modelos ainda impera o&nbsp;<em>Método Bacardi</em>&nbsp;(MB), que disseco abaixo retornando ao ponto em que paramos no exame do case&nbsp;<em>Santa Cruz 2005</em>.</p>



<p>Naquele ano, ainda que Náutico, Santa Cruz e Sport povoassem a mesma divisão, o formato de disputa vigente da Série B permitia que alguns times tivessem um calendário menor: das 22 equipes participantes, as 8 melhores avançavam para uma disputa em quadrangulares enquanto para as 14 demais a temporada chegava ao fim.</p>



<p>Náutico e Santa Cruz estiveram no primeiro grupo, e o Sport no segundo. Recordo ao leitor a marcação feita destacando a peculiaridade inerente ao contexto no qual praças esportivas com mais de duas agremiações estão inseridas:&nbsp;<em>no mínimo, haverá sempre uma torcida acompanhando a escrita da história pelo sofá</em>.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://cdn.bitrix24.com.br/b13707761/landing/a6c/a6cd7e83d5b21c1f476f5860bfdd57bc/8_1x.png" alt="Posts" title="Minúcias: O Método Bacardi 20"></figure>



<p>Entre o último jogo da primeira fase, disputado em 10/09/2005, e a rodada terminante do torneio em 26/11/2005 foram 77 dias. Quase três meses nos quais a oferta de futebol dos torcedores (<em>e dirigentes</em>) do Sport, fosse na transmissão das partidas ou nos programas esportivos de rádio e TV, era pautada na campanha de seus rivais.</p>



<p>É mais concebível notar e reconhecer méritos adversários quando se avalia o desempenho sem um componente emocional envolvido; assistir aos jogos do Santa Cruz era tão acessível aos adeptos alvirrubros quanto aos rubro-negros. Contudo, o fato de seguir concorrendo com o rival tricolor por uma vaga na elite criava uma diferenciação na audiência: enquanto os torcedores do Náutico &#8220;secavam&#8221; o Santa Cruz na expectativa dos jogos do seu próprio time no dia seguinte, os rubro-negros (ainda que seguramente torcessem pelo fracasso dos rivais na empreitada do acesso) não tinham&nbsp;<em>a pele em jogo</em>. Partidas marcantes dos corais que ocorreram durante as férias forçadas do Sport eram a alternativa dos quais torcedores leoninos dispunham para ver futebol&nbsp;<em>desprovidos da carga emocional de acompanhar seu próprio time</em>.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://cdn.bitrix24.com.br/b13707761/landing/bfd/bfde7ae388c84700833de5c6a62568bd/1_1x.png" alt="Posts" title="Minúcias: O Método Bacardi 21"></figure>



<p>Anteriormente, mostrei como o&nbsp;<em>MB</em>&nbsp;é empregado mesmo onde há abundância de recursos: assistir futebol pincelando seus jogadores prediletos para reforçar o Real Madrid é a estratégia de Florentino Pérez, que retornou ao posto de presidente merengue em 2009 para uma segunda&nbsp;<em>era Galáctica</em>. Desta vez, os aportes foram feitos nas contratações de Kaká (€ 65 milhões pagos ao Milan) e Cristiano Ronaldo (€ 94 milhões pagos ao Manchester United), e até que de fato se pudesse dizer que houve sucesso esportivo resultante da política esbanjadora de Pérez, mais cifras milionárias foram empregadas na tentativa de formar uma seleção continental:&nbsp;</p>



<ul class="wp-block-list"><li>2012: Luka Modrić&nbsp;&#8211; € 35 milhões pagos ao Tottenham</li><li>2013:&nbsp;Gareth Bale &#8211; € 99 milhões pagos ao Tottenham</li><li>2014:Toni Kroos &#8211; € 30 milhões pagos ao Bayern de Munique.</li></ul>



<p>A injeção destes valores na cadeia no futebol tem dois corolários mercadológicos. O primeiro dele foi discriminado por Ferran Soriano, ex-dirigente do Barcelona e atual CEO do Manchester City, em seu livro&nbsp;<em>A Bola Não Entra por Acaso</em>:</p>



<p><em>[&#8230;] Era&nbsp;</em>(a contratação de Zidane)<em>, pelo tanto que se pagou, sem sentido: € 76 milhões supunham mais da metade da renda que tinha o clube&nbsp;</em>(Real Madrid)<em>&nbsp;naquele ano.</em></p>



<p><em>[&#8230;] De novo [&#8230;] entrava no circuito da indústria do futebol dinheiro que vinha de fora e gerava inflação. [&#8230;] Os 60 milhões de euros que o Barcelona [&#8230;] obteve pela transferência do português&nbsp;</em>(Luís Figo)<em>&nbsp;foram parar, boa parte, nos cofres do Arsenal, da Inglaterra, em troca de Overmars e Petit. E os 76 milhões de Zidane a Juventus utilizou para contratar Buffon e Thuram do Parma, da Itália. [&#8230;] A Juventus pagou a quantia mais alta que jamais havia sido desembolsada por um goleiro &#8211; 53 milhões de euros &#8211; e outros 31 milhões por Thuram. A inflação se estendia por todo o circuito.</em></p>



<p>A exuberância de Florentino Pérez foi espelho para novos projetos megalomaníacos no futebol, todos usuários do Método Bacardi, naturais crédulos da eficiência portátil; entre eles o Chelsea do russo Roman Abramovich, que entre a compra dos blues em 2003 e o título da Champions League em 2012 injetou € 602.3 milhões somente na compra de jogadores. A inflação serial alcançou o Brasil, onde os valores praticados no futebol tiveram aumento significativo ao longo das últimas duas décadas.</p>



<p>O segundo efeito das ações de Florentino Pérez foi a disseminação do Método Bacardi, com a figura do&nbsp;<em>cartola</em>&nbsp;ganhando ainda mais status numa perigosa associação entre o interesse pelo futebol como hobby e a responsabilidade de gerir um clube profissional. A nível nacional, há casos múltiplos de montagens de elenco baseadas na&nbsp;<em>eficiência portátil</em>; me coloco a disposição dos leitores para discutir exemplos, mas não os acrescentarei a está já extensa análise para que possamos identificar a consistência do&nbsp;<em>MB</em>&nbsp;em Pernambuco.</p>



<p>O circuito&nbsp;<em>Recifense</em>&nbsp;(o trâmite de um mesmo jogador por clubes concorrentes) existe desde os primórdios do futebol na cidade, mas foi intensificado no início do século XXI pela inflação em série e pela disseminação do MB: um total de 174 jogadores completou ao menos&nbsp;<em>uma</em>&nbsp;etapa desse circuito desde 2001.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://cdn.bitrix24.com.br/b13707761/landing/99c/99c5d441a7b4d6b23ac39206fd145763/10_1x.png" alt="Posts" title="Minúcias: O Método Bacardi 22"></figure>



<p>Recordo ao leitor que o Náutico jamais tentou&nbsp;<em>reproduzir</em>&nbsp;o elenco coral de 2005 apesar de ter tido os tricolores como carrascos; esse intuito coube ao Sport em função, sobretudo, do grande hiato de jogos dos rubro-negros entre o fim precoce da temporada 2005 e o início de 2006. Assistir a jogos numa zona de conforto é a premissa básica do&nbsp;<em>Método Bacardi</em>, e as relações do circuito recifense são atreladas ao consumo de futebol nesta zona.</p>



<p>Entre 2008 e 2013 o Santa Cruz transitou entre as Séries C e D, e enquanto seus rivais tinham uma agenda útil preenchida pela disputa das Séries A e B, o calendário tricolor foi prematuramente encerrado por mais de uma vez:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>2008: último jogo em 06/09</li><li>2009: último jogo em 09/08</li><li>2010: último jogo em 05/10&nbsp;</li></ul>



<p>Por três anos em sequência o Santa Cruz passou por meses de inatividade profissional, uma ociosidade futebolística preenchida aos dias de quarta e domingo na Rede Globo com jogos de Náutico e Sport. Mesmo nas temporadas nas quais o ano coral foi mais robusto, o fato de estar abaixo na hierarquia nacional permitia um acompanhamento massivo do cotidiano de seus coirmãos:&nbsp;<em>o número de jogos nas divisões C e D é radicalmente menor que nas A e B mesmo quando há prosperidade</em>. Em 2013, ano em que a Série C foi conquistada pelo Santa Cruz, foram 26 partidas tricolores no certame nacional contra 38 de Náutico (Série A) e Sport (Série B).</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://cdn.bitrix24.com.br/b13707761/landing/218/2188438010486bfd056bed37390db11e/11_1x.png" alt="Posts" title="Minúcias: O Método Bacardi 23"></figure>



<p>Dos 64 atletas envolvidos no ciclo&nbsp;<em>Náutico-Santa</em>, 42 jogaram no Náutico antes de defender o Santa Cruz. Essa incidência quase duas vezes maior de ex-alvirrubros contratados pelos tricolores é correlata ao período inoperante coral: 20 dos 44 jogadores que defenderam primeiro o Náutico o fizeram entre 2007 e 2012.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://cdn.bitrix24.com.br/b13707761/landing/774/774ad7cbad15749802ac3ffdc564f04f/12_1x.png" alt="Posts" title="Minúcias: O Método Bacardi 24"></figure>



<p>Similarmente, 12 dos 33 atletas ex-Sport contratados pelo Santa Cruz estiveram no rubro-negro entre 2007 e 2012. Fortes impressões foram geradas na cúpula coral não porque,&nbsp;<em>necessariamente</em>, os times de Náutico e Sport fossem bons, mas em virtude de serem a referência de futebol mais acessível aos cartolas.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://cdn.bitrix24.com.br/b13707761/landing/02e/02e292bf6025232c792b95919f630cb4/1_1x.png" alt="Posts" title="Minúcias: O Método Bacardi 25"></figure>



<p>Considerando os dezessete atletas que concluíram o Circuito Recifense (isto é, que vestiram as três camisas), apenas um iniciou sua jornada no Recife pelo Arruda. Em quase 60% dos casos, o Santa Cruz buscou jogadores que já haviam atuado por seus dois rivais.</p>



<p>Procuro com esta exposição não condenar o Santa Cruz numa inferioridade mercadológica, mas o fato de ter estado inferior por meia década pesou numa desorientação de mercado: habitar as divisões mais baixas do futebol nacional não é desejável, mas confere uma oportunidade de mapear atletas despercebidos e, em consequência, não precificados. O Santa Cruz ignorou essa brecha e direcionou seus esforços na aquisição de nomes em curva descendente, que haviam se destacado por seus rivais dois ou três anos antes na expectativa de que reproduzissem no Arruda a performance exibida nos Aflitos ou na Ilha do Retiro em contextos não replicáveis.</p>



<p>Nos momentos em que Náutico e Sport foram os espectadores, o comportamento no mercado foi semelhante:&nbsp;<em>tomaram os rivais como referência</em>. Vimos o esforço rubro-negro em reproduzir na Ilha do Retiro o Santa Cruz de 2005 &#8211;&nbsp;<em>de fato, 50% dos atletas ex-Santa Cruz contratados pelo Sport pertenciam ao escrete coral de 2005</em>. Sob prisma alvirrubro, destaco a ausência do Náutico nas finais do Campeonato Pernambucano entre 2011 e 2013. Neste período, o Santa Cruz foi tricampeão estadual em três decisões contra o Sport &#8211;&nbsp;<em>ainda assim, foi o Náutico quem tentou se apropriar do desempenho coral</em>. 5 jogadores que participaram das finais do Pernambucano entre 2011 e 2013 tiveram passagens posteriores pelo Timbu, quatro deles ex-Santa Cruz, com o goleiro Tiago Cardoso, reputado pelas atuações de gala contra o Sport, como maior expoente da leva.&nbsp;</p>



<p>Cartolas tendem a basear seu entendimento de futebol na bolha futebolística em que vivem. Ao sugerir que a contratação de Philip, do Afogados, tenha sido oriunda de uma noite regada a Bacardi por parte do presidente do Sport, meu colega não visava propagandear o rum cubano, mas sim definir um estereótipo. Todo futebolista aficionado aprecia uma oportunidade de sentar, preferencialmente com os amigos, e assistir ao jogo de seu time &#8211; mas isso não qualifica ninguém para contratar jogadores. O emprego do Método Bacardi expõe os clubes a um alto risco esportivo, o que na era do&nbsp;<em>futebol industrial</em>&nbsp;se configura num numa exposição ao risco financeiro.</p>



<p>Departamentos de scout dos mais modernos clubes do mundo diferem nos critérios de contratação de atletas, mas comungam o cuidado de não permitir que uma única partida os convença a respeito do potencial de determinado jogador. Ao ver Philip em noite memorável contra o Atlético/MG, concorrente do Sport na Primeira Divisão, houve a percepção de que ele poderia repetir com regularidade aquele desempenho diante de desafios técnicos semelhantes. A previsão feita à época da publicação original deste texto se concretizou, e o atleta acabou dispensado após disputar apenas 18 minutos de futebol com a camisa rubro-negra.</p>



<p>Em 2010, Ithamar Rangel, um meia à época com 24 anos, foi contratado pelo Náutico após ter aparecido numa <a href="http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Esporte_Espetacular/0,,MUL1486910-16321,00.html" class="rank-math-link" target="_blank" rel="noopener">matéria do Esporte Espetacular</a> que contemplava o futebol em Cingapura. A justificativa para a vinda do atleta por parte do então diretor de futebol alvirrubro, Armando Ribeiro, foi baseada num único critério: <em>velocidade.</em></p>



<p class="has-text-align-center">“<em>O futebol em que ele estava é veloz. E ele se destacava justamente pela velocidade</em>”, justificou o diretor de futebol do Náutico, Armando Ribeiro.</p>



<p>É pouco provável os dirigentes do Náutico estivessem bebendo Bacardi durante uma manhã dominical em meio a transmissão do Esporte Espetacular. Caso à caso, poderíamos chamar este fenômeno de&nbsp;<em>Método Suco de Laranja</em>&nbsp;ou ainda&nbsp;<em>Método Caldo de Cana</em>, infusões mais condizentes com a manhã de domingo. Independente da bebida, tal como uma ressaca de rum, o Método Bacardi resiste a ir embora. 11 anos separam a contratação de Ithamar Rangel, pelo Náutico, da atividade de mercado atual do Santa Cruz. Com três treinadores contratados e mais de vinte contratações realizadas numa temporada ainda incipiente, é difícil dissociar o apego à nomes como os dos volantes Derley e Elicarlos e do meia Marcos Vinicius, todos já dispensados, da tese do <em>Método Bacardi</em>. Ao todo, oito dos reforços trazidos pelos corais até então já foram dispensados.</p>



<p>A essência da metodologia avaliada no&nbsp;<em>Método Bacardi</em>&nbsp;é nociva ao momento profissional do futebol e motor das dificuldades que clubes tradicionais de Pernambuco, do Nordeste e do Brasil enfrentam e continuarão enfrentando: a concorrência será dominada por aqueles que entenderam ou&nbsp;<em>estão se propondo</em>&nbsp;a entender a importância do contexto. O futebol é profissional e, se não considerado como tal, os clubes continuarão à mercê das vontades do rum.</p>



<p></p>
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		<title>Minúcias: As perspectivas, os desafios e os riscos Alexandre Gallo no Santa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Apr 2021 21:00:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="93" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano-170x93.jpeg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano-170x93.jpeg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano-600x328.jpeg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano-768x419.jpeg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano.jpeg 846w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: As perspectivas, os desafios e os riscos Alexandre Gallo no Santa 27">Em 2007, Alexandre Gallo chegou ao Sport ainda mais conhecido pelo atleta que foi de que pelo treinador que era. No Leão, conseguiu projeção e precocemente deixou o clube para treinar o Internacional de Porto Alegre, uma decisão polêmica que parece ter fechado as portas rubro-negras para Gallo para sempre. Nos 10 anos seguintes, acumulou [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="93" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano-170x93.jpeg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Posts" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano-170x93.jpeg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano-600x328.jpeg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano-768x419.jpeg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2020/11/alexandre_gallo_sao_caetano.jpeg 846w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: As perspectivas, os desafios e os riscos Alexandre Gallo no Santa 28">
<p>Em 2007, Alexandre Gallo chegou ao Sport ainda mais conhecido pelo atleta que foi de que pelo treinador que era. No Leão, conseguiu projeção e precocemente deixou o clube para treinar o Internacional de Porto Alegre, uma decisão polêmica que parece ter fechado as portas rubro-negras para Gallo para sempre. Nos 10 anos seguintes, acumulou três passagens pelo Náutico: 2010, 2012-13 e 2016. Finalmente, é anunciado no Santa Cruz.</p>



<p>São 14 anos separando o início da jornada de Alexandre Tadeu Gallo no futebol pernambucano e a conclusão do circuito no Trio de Ferro. É o quinto técnico a passar pelos três no século XXI, integrando uma lista composta por Givanildo Oliveira, Zé Teodoro, Marcelo Martelotte e PC Gusmão. Muitos discorrerão a respeito do que esperar do agora treinador coral, que encara no tricolor do Arruda um dos desafios mais robustos de sua carreira. Ainda que haja, nos parágrafos a seguir, um quê palpiteiro, o verdadeiro intuito deste texto é executar uma engenharia reversa para identificar os critérios utilizados para eleger Alexandre Gallo como o nome mais indicado para o cargo. Para tal, é necessário identificar padrões de comportamento em sua carreira e associá-los ao momento coral.</p>



<p><strong>Necessidade de reforma</strong></p>



<p>Há um nítido déficit técnico no plantel tricolor. Algo não apenas na régua de 1º trimestre, tendo como concorrentes equipes das Séries A e B tanto na Copa do Nordeste quanto no Campeonato Pernambucano, mas também atrelado ao horizonte da Série C. Se não rica tecnicamente, a competição exige características de intensidade até aqui não demonstradas pelo time até então comandado por João Brigatti. As 13 contratações já realizadas pouco convencem, e parece existir um apego da diretoria do Santa Cruz aos nomes que algum dia já vingaram no futebol local, mas que há algum tempo não apresentam desempenho convincente &#8211; casos, por exemplo, de Elicarlos e Marcos Vinicius. Dois atletas que, assim como Derley, foram comandados por Gallo no Náutico.</p>



<p>Dentro desta necessária reforma que já está ocorrendo, o know-how de Gallo pode ser um diferencial. Em suas três passagens no Náutico, o treinador herdou legados malditos do Campeonato Estadual e se viu na incumbência de capitanear o entra e sai de jogadores. Foi assim em 2010 e 2016, quando assumiu o alvirrubro com o Pernambucano ainda em curso com o clube na Série B, e em 2012, quando também chegou com o estadual praticamente perdido mas já focado na reformulação para a Série A. Em todas as empreitadas, houve pelo menos alguma margem de sucesso:</p>



<ul class="wp-block-list"><li>Em 2010 conseguiu fazer o time se consolidar no G4 durante o início da competição, chegando inclusive a liderá-la. Na 10ª rodada, o Náutico acumulava apenas uma derrota na Série B e ocupava a 1ª posição. Atrasos salariais acabaram por minar a campanha de acesso e culminaram na demissão de Gallo.</li><li>Gallo foi o treinador alvirrubro durante as 38 rodadas do Campeonato Brasileiro de 2012. Optou por uma leva de jogadores mais experientes para reforçar o alvirrubro após o turbulento início de ano, tais como os laterais Alessandro e Lúcio, o zagueiro Jean Rolt, o volante Martinez e o atacante Araújo. O 12º lugar alcançado (melhor campanha do Náutico na história dos pontos corridos) evidenciou o sucesso da reforma.</li><li>Em 2016, retornando ao Náutico após um período comandando a Seleção Brasileira Sub-20, Gallo pautou o foco da atividade de mercado alvirrubra numa série de jovens com quem tinha trabalhado na base nacional. Foi o caso do lateral-esquerdo Mateus Muller (então com 20 anos), dos zagueiros Eduardo Bauermann (20), Léo Pereira (20, atualmente no Flamengo) e Igor Rabello (21, atualmente no Atlético/MG), do volante Eurico (22) e do atacante Yuri Mamute (21). É possível dizer que esta tenha sido a &#8216;reforma&#8217; menos exitosa, visto que poucos desses atletas obtiveram minutagem alta no Náutico e a campanha dava indícios de fracasso suficientes para motivar a troca de Gallo por Givanildo Oliveira.</li></ul>



<p>Essa experiência em lidar com processos de reformulação ocorrendo com a temporada em andamento pode representar um diferencial na jornada de Alexandre Gallo como treinador coral.</p>



<p><strong>Papel mercadológico ativo</strong></p>



<p>Gallo sempre se mostrou um treinador atuante na atividade mercadológica dos clubes que dirigiu, as vezes de maneira até viciada. Se configura como um daqueles treinadores habituado a trabalhar com os mesmos nomes. Em 2007, no Sport, trouxe o zagueiro César Lucena, com quem tinha trabalhado na Portuguesa, e o meia Luciano Henrique, que conhecera no Santos. Este mesmo Luciano Henrique acabou sendo levado, meses depois, para o Internacional de Porto Alegre. Atletas como o lateral-direito César Prates e o volante Elton Giovanni o acompanharam no Figueirense, no Atlético/MG, no Bahia e no Náutico. E, como vimos, a predileção por jogadores das seleções de base da CBF, em negócios no modelo de &#8220;barriga de aluguel&#8221;, ocorreu após sua passagem pela seleção sub-20.</p>



<p>O papel mercadológico ativo de Gallo como um treinador, potencializado pelos anos em que foi dirigente no Atlético/MG, oscila entre extremos. Na ausência de um executivo de futebol, a rede de contatos do treinador pode ser valiosa para um clube em apuros financeiros. Entretanto: I. esta não pode ser uma muleta para que o clube abdique de contratar um executivo, e II. a Série C é um mercado pouco comum a Gallo, habituado aos trabalhos em clubes das Séries A e B. Ainda que possam haver atletas no radar do treinador adequados ao momento financeiro coral, é preciso avaliar se as características destes jogadores se adequam ao perfil da Série C.</p>



<p><strong>Risco de abandono</strong></p>



<p>Se Gallo assume um risco ao aceitar a proposta tricolor (herda um plantel pobre tecnicamente num cenário hostil para reformulação), o Santa Cruz deve estudar, com alguma constância, o cenário nas Séries B e A para antecipar uma potencial saída de Gallo. O treinador ficou marcado, sobretudo no início de sua jornada como técnico, por rompimentos rudes de contratos. Em 2007, deixou o Sport para treinar o Internacional, um movimento que culminou na desistência do recém-contratado Giovanni de atuar pelo rubro-negro (a relação com Gallo fora o alicerce do acordo) e que acabou fechando portas na Ilha do Retiro para sempre após a insistência do treinador em indicar para seu novo clube nomes do elenco leonino &#8211; Luciano Henrique acabou migrando para Porto Alegre e o zagueiro Durval foi constantemente assediado. O mesmo ocorreu em 2008, quando aceitou um convite do Atlético/MG enquanto treinador do Figueirense e desfalcou os catarinenses levando consigo alguns jogadores &#8216;fiéis&#8217;, como o lateral César Prates e o volante Elton.</p>



<p>O insucesso obtido nas curtas passagens por Internacional e Atlético/MG parece ter feito o treinador repensar a pressa em crescer no mercado, visto que somente mais uma vez haveria uma opção de não-continuidade do trabalho em sua carreira, quando deixou o Náutico, no início de 2013, para comandar a seleção sub-20, numa negociação muito menos hostil. Contudo, essa é apenas uma hipótese: é difícil dizer se novos abandonos não ocorreram por um amadurecimento de Gallo ou simplesmente porque o técnico jamais tornou a repetir boas campanhas de início de ano, nos moldes que conseguiu no Sport de 2007 e no Figueirense de 2008. Seria insensato para a cúpula coral dormir assumindo que, caso haja sucesso a curto prazo de Gallo, o treinador não venha a optar por deixar o tricolor priorizando propostas mais vantajosas.</p>



<p><strong>Risco de abandono II</strong></p>



<p>Gallo é um técnico particularmente exigente em questões estruturais e condições de trabalho. Sua rápida ascensão na carreira, que o consolidou em mercados de Séries A e B, e, principalmente, sua vivência na Granja Comary fez de Alexandre Gallo um técnico acostumado com um certo nível de estrutura ainda incipiente no Santa Cruz. O déficit neste quesito pode vir a ser um ofensor ao desenvolvimento do trabalho e aos resultados obtidos.</p>



<p><strong>Necessidade de acesso</strong></p>



<p>A ausência de acessos no currículo é um ponto preocupante. Mesmo na Série B, Gallo poucas vezes conseguiu percorrer uma rota de acesso e a sua inexperiência na Série C, uma competição muito particular, requer um planejamento atencioso não apenas pensando na reformulação do elenco, mas na gestão da campanha. </p>



<p><strong>Previsão do autor</strong></p>



<p>É difícil dizer se houve consideração pelos fatores aqui apontados no debate que culminou na decisão da cúpula de futebol coral em convidar Alexandre Gallo para treinar o Santa Cruz, uma decisão que de fato parece baseada no histórico do treinador no futebol local (com meia década de distância desde a última passagem) de que numa avaliação de seus últimos trabalhos. O título na Série A-2 paulista com o São Caetano foi conquistado no limite e não houve sequência no trabalho. O período recente no Botafogo/SP foi praticamente desastroso. Dá para se dizer que o último bom trabalho realizado em clubes por Gallo, em circunstâncias pelo menos parelhas às vividas atualmente pelo Santa Cruz, foi no Náutico de 2012. O que não representa uma sentença de insucesso, mas torna mais nebulosa a visualização de um cenário em que o treinador supere seu histórico recente, se adapte ao tripé de gargalos coral (estrutura deficitária, elenco desqualificado e ambiente conturbado) e adeque seu know-how de mercado ao universo da Série C. Será surpresa de Gallo tiver vida longa no tricolor.</p>
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		<title>Minúcias: o declínio do futebol pernambucano em perguntas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Rodolpho Moreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Apr 2021 14:51:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1-170x96.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Eleição - Sede da Federação Pernambucana de Futebol (FPF), no Recife" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1-170x96.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1-600x338.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1-768x432.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: o declínio do futebol pernambucano em perguntas 29">O momento do futebol em Pernambuco, há tempos, deixou de ser &#8216;delicado&#8217;. O estado, tradicional líder competitivo da região, vê não apenas o declínio que compreende o &#8216;Trio de Ferro&#8217; e vários clubes interioranos, mas também o crescimento de praças concorrentes, tais como Ceará e Alagoas. 2021 consolida essa tendência acentuada de queda. As vexatórias [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<img width="170" height="96" src="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1-170x96.jpg" class="attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image" alt="Eleição - Sede da Federação Pernambucana de Futebol (FPF), no Recife" decoding="async" loading="lazy" srcset="https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1-170x96.jpg 170w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1-600x338.jpg 600w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1-768x432.jpg 768w, https://ne45.com.br/wp-content/uploads/2021/01/fpf_sede_na_boa_vista_700_1.jpg 1200w" sizes="(max-width: 170px) 100vw, 170px" title="Minúcias: o declínio do futebol pernambucano em perguntas 30">
<p>O momento do futebol em Pernambuco, há tempos, deixou de ser &#8216;delicado&#8217;. O estado, tradicional líder competitivo da região, vê não apenas o declínio que compreende o &#8216;Trio de Ferro&#8217; e vários clubes interioranos, mas também o crescimento de praças concorrentes, tais como Ceará e Alagoas.</p>



<p>2021 consolida essa tendência acentuada de queda. As vexatórias campanhas de Sport e Santa Cruz na Copa do Nordeste são tão preocupantes quanto a constante ausência do Náutico do torneio regional.  Na Copa do Brasil, competição de &#8216;monetização&#8217;, quedas precoces em sequência. E, no estadual, a insistência do Salgueiro em desistir das competições em 2021 menos de um ano após ser o primeiro campeão estadual fora da RMR evidencia o quão inexpressivo se tornou o Campeonato Pernambucano.</p>



<p>Nos últimos anos, eleições variadas ocorreram nas sedes de Náutico, Sport e Santa Cruz, com candidatos variados apontando correções de rumo supostamente necessárias. Discursos vagos referentes a utilização de base, palavras como &#8216;critério&#8217; e &#8216;planejamento&#8217; utilizadas num modelo pronto e sem qualquer fundamentação, raso conhecimento de mercado&#8230; Enquanto, individualmente, o Trio de Ferro tenta resolver seus problemas, não houve um único momento em que os clubes tenham se juntado para debater seus gargalos e pensar em soluções compartilhadas; no caminho solitário, percorrem uma senda que tradicionalmente se encerra no misticismo e na repetição de padrões de comportamento vigentes por décadas.</p>



<p>A solução para os clubes, individualmente, não está numa única contratação, nem na troca de treinador. Está na revisão de suas práticas, num estudo de mercado, na constituição de um elaborado plano para agir na indústria do futebol, plantando sementes que darão fruto a médio e longo prazo. Tomemos como exemplo o Santa Cruz: o foco (declarado) maior de todos os candidatos no último pleito foi &#8220;obter o acesso&#8221;, &#8220;sair da Série C&#8221;. Uma viagem de 10 anos no tempo mostra que o objetivo não se alterou: em 2011, o Santa Cruz conseguiu, após 3 temporadas no esgoto futebolístico nacional, o acesso na Série D. Dois anos depois, retornou a Série B e, em 2016, regressou a Série A. Dois anos depois estava, mais uma vez, na terceira divisão. <em><strong>Fundamentalmente, o Santa Cruz está onde estava há 10 anos</strong></em>: sem saber como chegou aonde está, com uma vaga ideia de onde quer estar e sem nenhum método desenvolvido para percorrer a jornada. Deixar a Série C é um objetivo importante e necessário, mas se alcançado aleatoriamente, o retorno será questão de tempo.</p>



<p>Os dirigentes dos clubes em Pernambuco, em sua maioria, querem fornecer respostas aos problemas das instituições sem sequer realizarem perguntas. Não há investigação referente aos eventos que consolidaram tanto a derrocada de cada clube quanto o coletivo estado caótico vivido. E, com base em percepções individuais e sem aprofundamento profissional, os gestores eleitos acabam fazendo mais do mesmo e tornando a reversão do cenário apocalíptico cada vez mais difícil.</p>



<p>Obviamente, há uma contribuição substancial da Federação Pernambucana de Futebol neste contexto. A gestão questionável de Evandro Carvalho ao longo de uma década na FPF tem peso na consolidação do ocaso do futebol estadual, mas os clubes não podem terceirizar a responsabilidade de sua saúde financeira e seu desempenho esportivo. </p>



<p>Os problemas dos clubes, separadamente, são tão abundantes que fariam deste texto um verdadeiro dossiê. Para torná-lo mais acessível, este que vos escreve optou por segmentá-lo em diferentes &#8216;capítulos&#8217;, começando pela reflexão contida ao longo deste texto inaugural. As perguntas que vejo como essenciais, sob um prisma coletivo:</p>



<ul class="wp-block-list"><li><strong>O crescimento esportivo em outros estados é fruto de um processo pensado ou um evento aleatório?</strong> Sem o entendimento da operação da concorrência, falharemos em identificar oportunidades e antecipar erros já cometidos por outros.</li><li><strong>A derrocada coletiva do futebol pernambucano pode ser associado ao fracasso individual dos clubes individualmente? </strong>Isto é, estamos vivendo um efeito dominó, onde os clubes vão se puxando para baixo, ou é coincidência que o momento ruim dos clubes em geral esteja acontecendo simultaneamente?</li><li><strong>Qual o posicionamento de Pernambuco na indústria do futebol?</strong> Não estamos operando numa competição estadual, nem regional e tampouco nacional. Somos um pequeno ecossistema inserido num contexto global e essa assimilação ainda não aconteceu.</li><li><strong>O que devemos esperar do futebol no interior e como podemos cobrar aquilo que esperamos?</strong> O precário Salgueiro assumiu, na última década, um protagonismo que nos anos 2000 se dividiu em clubes como Central, Porto, Ypiranga e Serrano. É possível recuperar uma pluralidade competitiva? É possível associar o esquecido enfraquecimento coletivo no interior ao declínio evidente na capital?</li></ul>



<p>Com base nestas perguntas, ao longo das próximas semanas, estarei semanalmente alimentando este estudo ao longo das próximas 10 semanas, direcionando parte das reflexões feitas aqui para que um diagnóstico <em>minucioso</em> dos problemas do futebol pernambucano seja traçado. Ao longo de 10 textos, espero contribuir de alguma forma com o necessário movimento de reforma para recuperação do futebol estadual.</p>



<p>Até a próxima semana.</p>



<p></p>
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