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Minúcias: As perspectivas, os desafios e os riscos Alexandre Gallo no Santa

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Em 2007, Alexandre Gallo chegou ao Sport ainda mais conhecido pelo atleta que foi de que pelo treinador que era. No Leão, conseguiu projeção e precocemente deixou o clube para treinar o Internacional de Porto Alegre, uma decisão polêmica que parece ter fechado as portas rubro-negras para Gallo para sempre. Nos 10 anos seguintes, acumulou três passagens pelo Náutico: 2010, 2012-13 e 2016. Finalmente, é anunciado no Santa Cruz.

São 14 anos separando o início da jornada de Alexandre Tadeu Gallo no futebol pernambucano e a conclusão do circuito no Trio de Ferro. É o quinto técnico a passar pelos três no século XXI, integrando uma lista composta por Givanildo Oliveira, Zé Teodoro, Marcelo Martelotte e PC Gusmão. Muitos discorrerão a respeito do que esperar do agora treinador coral, que encara no tricolor do Arruda um dos desafios mais robustos de sua carreira. Ainda que haja, nos parágrafos a seguir, um quê palpiteiro, o verdadeiro intuito deste texto é executar uma engenharia reversa para identificar os critérios utilizados para eleger Alexandre Gallo como o nome mais indicado para o cargo. Para tal, é necessário identificar padrões de comportamento em sua carreira e associá-los ao momento coral.

Necessidade de reforma

Há um nítido déficit técnico no plantel tricolor. Algo não apenas na régua de 1º trimestre, tendo como concorrentes equipes das Séries A e B tanto na Copa do Nordeste quanto no Campeonato Pernambucano, mas também atrelado ao horizonte da Série C. Se não rica tecnicamente, a competição exige características de intensidade até aqui não demonstradas pelo time até então comandado por João Brigatti. As 13 contratações já realizadas pouco convencem, e parece existir um apego da diretoria do Santa Cruz aos nomes que algum dia já vingaram no futebol local, mas que há algum tempo não apresentam desempenho convincente – casos, por exemplo, de Elicarlos e Marcos Vinicius. Dois atletas que, assim como Derley, foram comandados por Gallo no Náutico.

Dentro desta necessária reforma que já está ocorrendo, o know-how de Gallo pode ser um diferencial. Em suas três passagens no Náutico, o treinador herdou legados malditos do Campeonato Estadual e se viu na incumbência de capitanear o entra e sai de jogadores. Foi assim em 2010 e 2016, quando assumiu o alvirrubro com o Pernambucano ainda em curso com o clube na Série B, e em 2012, quando também chegou com o estadual praticamente perdido mas já focado na reformulação para a Série A. Em todas as empreitadas, houve pelo menos alguma margem de sucesso:

  • Em 2010 conseguiu fazer o time se consolidar no G4 durante o início da competição, chegando inclusive a liderá-la. Na 10ª rodada, o Náutico acumulava apenas uma derrota na Série B e ocupava a 1ª posição. Atrasos salariais acabaram por minar a campanha de acesso e culminaram na demissão de Gallo.
  • Gallo foi o treinador alvirrubro durante as 38 rodadas do Campeonato Brasileiro de 2012. Optou por uma leva de jogadores mais experientes para reforçar o alvirrubro após o turbulento início de ano, tais como os laterais Alessandro e Lúcio, o zagueiro Jean Rolt, o volante Martinez e o atacante Araújo. O 12º lugar alcançado (melhor campanha do Náutico na história dos pontos corridos) evidenciou o sucesso da reforma.
  • Em 2016, retornando ao Náutico após um período comandando a Seleção Brasileira Sub-20, Gallo pautou o foco da atividade de mercado alvirrubra numa série de jovens com quem tinha trabalhado na base nacional. Foi o caso do lateral-esquerdo Mateus Muller (então com 20 anos), dos zagueiros Eduardo Bauermann (20), Léo Pereira (20, atualmente no Flamengo) e Igor Rabello (21, atualmente no Atlético/MG), do volante Eurico (22) e do atacante Yuri Mamute (21). É possível dizer que esta tenha sido a ‘reforma’ menos exitosa, visto que poucos desses atletas obtiveram minutagem alta no Náutico e a campanha dava indícios de fracasso suficientes para motivar a troca de Gallo por Givanildo Oliveira.

Essa experiência em lidar com processos de reformulação ocorrendo com a temporada em andamento pode representar um diferencial na jornada de Alexandre Gallo como treinador coral.

Papel mercadológico ativo

Gallo sempre se mostrou um treinador atuante na atividade mercadológica dos clubes que dirigiu, as vezes de maneira até viciada. Se configura como um daqueles treinadores habituado a trabalhar com os mesmos nomes. Em 2007, no Sport, trouxe o zagueiro César Lucena, com quem tinha trabalhado na Portuguesa, e o meia Luciano Henrique, que conhecera no Santos. Este mesmo Luciano Henrique acabou sendo levado, meses depois, para o Internacional de Porto Alegre. Atletas como o lateral-direito César Prates e o volante Elton Giovanni o acompanharam no Figueirense, no Atlético/MG, no Bahia e no Náutico. E, como vimos, a predileção por jogadores das seleções de base da CBF, em negócios no modelo de “barriga de aluguel”, ocorreu após sua passagem pela seleção sub-20.

O papel mercadológico ativo de Gallo como um treinador, potencializado pelos anos em que foi dirigente no Atlético/MG, oscila entre extremos. Na ausência de um executivo de futebol, a rede de contatos do treinador pode ser valiosa para um clube em apuros financeiros. Entretanto: I. esta não pode ser uma muleta para que o clube abdique de contratar um executivo, e II. a Série C é um mercado pouco comum a Gallo, habituado aos trabalhos em clubes das Séries A e B. Ainda que possam haver atletas no radar do treinador adequados ao momento financeiro coral, é preciso avaliar se as características destes jogadores se adequam ao perfil da Série C.

Risco de abandono

Se Gallo assume um risco ao aceitar a proposta tricolor (herda um plantel pobre tecnicamente num cenário hostil para reformulação), o Santa Cruz deve estudar, com alguma constância, o cenário nas Séries B e A para antecipar uma potencial saída de Gallo. O treinador ficou marcado, sobretudo no início de sua jornada como técnico, por rompimentos rudes de contratos. Em 2007, deixou o Sport para treinar o Internacional, um movimento que culminou na desistência do recém-contratado Giovanni de atuar pelo rubro-negro (a relação com Gallo fora o alicerce do acordo) e que acabou fechando portas na Ilha do Retiro para sempre após a insistência do treinador em indicar para seu novo clube nomes do elenco leonino – Luciano Henrique acabou migrando para Porto Alegre e o zagueiro Durval foi constantemente assediado. O mesmo ocorreu em 2008, quando aceitou um convite do Atlético/MG enquanto treinador do Figueirense e desfalcou os catarinenses levando consigo alguns jogadores ‘fiéis’, como o lateral César Prates e o volante Elton.

O insucesso obtido nas curtas passagens por Internacional e Atlético/MG parece ter feito o treinador repensar a pressa em crescer no mercado, visto que somente mais uma vez haveria uma opção de não-continuidade do trabalho em sua carreira, quando deixou o Náutico, no início de 2013, para comandar a seleção sub-20, numa negociação muito menos hostil. Contudo, essa é apenas uma hipótese: é difícil dizer se novos abandonos não ocorreram por um amadurecimento de Gallo ou simplesmente porque o técnico jamais tornou a repetir boas campanhas de início de ano, nos moldes que conseguiu no Sport de 2007 e no Figueirense de 2008. Seria insensato para a cúpula coral dormir assumindo que, caso haja sucesso a curto prazo de Gallo, o treinador não venha a optar por deixar o tricolor priorizando propostas mais vantajosas.

Risco de abandono II

Gallo é um técnico particularmente exigente em questões estruturais e condições de trabalho. Sua rápida ascensão na carreira, que o consolidou em mercados de Séries A e B, e, principalmente, sua vivência na Granja Comary fez de Alexandre Gallo um técnico acostumado com um certo nível de estrutura ainda incipiente no Santa Cruz. O déficit neste quesito pode vir a ser um ofensor ao desenvolvimento do trabalho e aos resultados obtidos.

Necessidade de acesso

A ausência de acessos no currículo é um ponto preocupante. Mesmo na Série B, Gallo poucas vezes conseguiu percorrer uma rota de acesso e a sua inexperiência na Série C, uma competição muito particular, requer um planejamento atencioso não apenas pensando na reformulação do elenco, mas na gestão da campanha.

Previsão do autor

É difícil dizer se houve consideração pelos fatores aqui apontados no debate que culminou na decisão da cúpula de futebol coral em convidar Alexandre Gallo para treinar o Santa Cruz, uma decisão que de fato parece baseada no histórico do treinador no futebol local (com meia década de distância desde a última passagem) de que numa avaliação de seus últimos trabalhos. O título na Série A-2 paulista com o São Caetano foi conquistado no limite e não houve sequência no trabalho. O período recente no Botafogo/SP foi praticamente desastroso. Dá para se dizer que o último bom trabalho realizado em clubes por Gallo, em circunstâncias pelo menos parelhas às vividas atualmente pelo Santa Cruz, foi no Náutico de 2012. O que não representa uma sentença de insucesso, mas torna mais nebulosa a visualização de um cenário em que o treinador supere seu histórico recente, se adapte ao tripé de gargalos coral (estrutura deficitária, elenco desqualificado e ambiente conturbado) e adeque seu know-how de mercado ao universo da Série C. Será surpresa de Gallo tiver vida longa no tricolor.

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