Parecia que seria diferente. Em fevereiro deste ano, cinco anos depois, o Santa Cruz anunciava a volta do futebol feminino. Na oportunidade, surgia a primeira equipe própria, já que o clube viveu de parcerias ao longo das últimas décadas. Se falava em futuro no Arruda. Mas a história se repetiu: projeto encerrado há quatro meses por falta de apoio. E de respeito, defende o ex-treinador do time, Cristiano Recife, que desabafou sobre o desmonte do grupo em contato com a reportagem do NE45.
“Começamos bem, tivemos uma grande equipe, mas infelizmente o Santa Cruz não visa o futebol feminino também como prioridade. Eles não têm esse respeito. Dois ou três queriam, mas a hierarquia maior, que é o presidente, disse que não ia ajudar com nada. Não quis. Em um time feminino, as meninas, principalmente as que vêm de fora, precisam de absorvente, pasta de dente, perfume. Tem que ter respeito. Tem que ter ajuda de custo, porque elas precisam se manter”, alertou.

Para comandar o projeto do Santa Cruz, Cristiano deixou o Íbis. Na época, com a mudança, comemorou ter “chegado em um dos grandes”. Se animou com as possibilidades conversadas – e aceitas – pela diretoria do Tricolor. No entanto, o caminho tomado pelo plano foi diferente do esperado. E o fim abrupto do sonho é lamentado pelo treinador de futebol, principalmente pela situação das jogadoras envolvidas.
“A verdade é que eles não quiseram prosseguir com o projeto. Tinha um diretor, o Renato, o CEO Abdias Venceslau, e alguns poucos conselheiros que lutavam pelo time feminino. Mas vindo de outras partes, não. O foco maior é o masculino. E não tem isso de comparar masculino e feminino. Se acha que o feminino não tem agenda, é só investir para a equipe chegar numa Série A1 do Brasileiro, em uma Copa do Brasil. Não tem investimento e quer ver resultado?
Quer ter respaldo? Investe”, desabafou.
Das promessas, o que foi entregue?
Ajuda de custo e alojamento foram as principais garantias oferecidas pelo Santa Cruz. E de acordo com Cristiano, na medida do possível, o clube coral honrou com suas responsabilidades. Apesar dos gastos mínimos, o problema maior se deu a partir do momento em que a diretoria tricolor afirmou não mais ter condições de custear o projeto.
“Não foi cumprido tudo, mas saíram valores, sim. O alojamento não faltou. Só não tiveram mais como arcar, o que é uma vergonha. Gastam tanto com o futebol masculino e dizem não ter nem 1% para investir no feminino. Dizer que não tem? Difícil, mas vou fazer o quê? Vida que segue”, lamentou.
Mulheres da Bahia, Maranhão, Paraíba, Sergipe, Alagoas e São Paulo – além do próprio estado de Pernambuco – formaram a equipe do Santa Cruz. Alojadas no Recife, a possibilidade de continuar longe de casa tendo o futebol como motivo dependia diretamente das ajudas recebidas.
Santa Cruz repete triste filme de 2017

A condição de não mais contar com parcerias para manter a equipe em ação parece não ter sido determinante. Assim como em 2017, último ano, até então, em que teve um time feminino, o Santa Cruz encerrou a temporada sem nem mesmo ter começado. Naquela oportunidade, sem explicações, deu fim ao projeto deixando quase 30 mulheres ao acaso.
Na ocasião, oito jogadoras foram trazidas de fora de Pernambuco. Uma delas, a volante Elaine Campos, usou uma rede social pessoal para desabafar sobre a situação vivida por suas companheiras de equipe. Natural do Mato Grosso, a atleta denunciou quatro meses de atrasos salariais, sendo R$ 250 o valor acordado, em contrato, mensalmente.
“Queremos nossos direitos”, escreveu Elaine, na época, como porta-voz de outras mulheres que integravam o elenco do Santa Cruz. Sequer a passagem de volta para casa havia sido custeada pelo clube. O Tricolor, no entanto, só arcou com os serviços após a situação se tornar pública.
Sem respostas…
Até o momento da divulgação da matéria, o Santa Cruz não se posicionou sobre a situação da equipe feminina. O presidente coral Antônio Luiz Neto não atendeu às tentativas de contato da reportagem. Em caso de respostas, o texto será atualizado.
A equipe feminina coral teria compromissos marcados com a Copa Maria Bonita, que acontece entre os dias 6 e 15 de outubro, e com o Campeonato Pernambucano Feminino, ainda sem data definida.









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