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Atacante Gabriel Poveda, do Sampaio Corrêa - Vitória Atacante Gabriel Poveda, do Sampaio Corrêa - Vitória

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Por que Gabriel Poveda não jogou no Náutico?

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O gol de empate marcado por Gabriel Poveda, do Sampaio Corrêa, na vitória de virada por 3×1 sobre o Náutico na última sexta-feira foi o 15º do atacante de 24 anos nesta Série B (até aqui, o artilheiro da competição) e o 22º na temporada. Números não apenas recordes, mas estratosféricos na carreira do atacante.

Com uma minutagem de 3229 minutos (dados ogol), Poveda possui uma média interessante de um gol a cada 147 minutos (ou 1 gol a cada 1,63 jogos). A evolução é significativa no número de gols marcados (entre 2018 e 2021, o atleta marcou apenas 10 gols, menos da metade do que já marcou apenas em 2022), mas não devemos desconsiderar a minutagem: os mencionados 3229 minutos de 2022 superam a minutagem somada (2872’) de Poveda em 2021 (335’), 2020 (1800’) e 2019 (737’).

Há um “dilema do ovo e da galinha” na ascensão de Poveda que merece ser examinado. Entender a raiz de seu desempenho é tão desafiador que, confesso, tive enorme dificuldade para decidir por onde começar o exame. Um dos aspectos mais importantes será negligenciado neste texto: a avaliação tática, pois tanto pela falta de tempo quanto por ausência de propósito no estudo (entender como saem os gols de Gabriel Poveda é desnecessário para os fins do texto) irei me abster de uma avaliação digna.

Gabriel Poveda é o tipo de contratação quase sempre questionada em clubes de futebol, especialmente em clubes de massa. O parco histórico de gols em sua carreira (ao menos até 2022) por equipes medianas (Juventude, Brasil de Pelotas) é motivo de rejeição quase que imediata e justificada de forma simples nas redes sociais e, por extensão, nos bastidores dos clubes: “se não fez gols no Brasil de Pelotas (se aplica a qualquer time), vai fazer no ________?”.

De fato, o Náutico, até aqui a maior vítima de Poveda em sua incipiente carreira (scouts abaixo) é um exemplo recorrente tanto dessa crítica quanto de uma possível justificativa à mesma. Se tornou comum no histórico recente do alvirrubro de Rosa e Silva um fluxo considerável de atacantes contratados com pouco ou mesmo nenhum histórico artilheiro. A lista nos últimos 5 anos é farta e composta de nomes desconhecidos que, em sua maioria, não trouxeram nenhum retorno técnico ao clube. Exceto por Vinicius.

Atualmente no Goiás, Vinicius chegou ao Náutico em 2020 com a péssima e folclórica reputação de marcar apenas 1 gol por temporada. E, de fato, foi assim no início da passagem pelo timbu. Estreando na metade da Série B daquele ano, Vinicius marcou apenas 1 gol e, a despeito de uma relevante participação tática no esquema do então treinador Hélio dos Anjos, foi pouco produtivo na geração de ações ofensivas. Causou enorme surpresa quando, ao longo de 2021, o atacante marcou 13 gols (mais que o dobro de que os 6 gols marcados pelo Palmeiras em 2013, até então o melhor ano de sua carreira).

“Uma contratação acertada”, disse um agora ex-diretor de futebol do Náutico. Errado. Vinicius é uma contratação que deu certo, um conceito separado de uma contratação acertada por uma linha bastante tênue: nem toda contratação assertiva dá certo, e nem toda contratação que dá certo é feita de forma assertiva. Contudo, é muito mais provável darem certo as contratações pautadas em processos de análise de que em distribuições aleatórias – caso da chegada de Vinicius ao Náutico.

O atacante é um preferido de Gilson Kleina, com quem trabalhou no Palmeiras em 2012-13 (no segundo ano, fez o maior número de jogos de sua carreira em uma única temporada – 46) e em outros variados clubes para os quais Kleina indicou o atacante: Coritiba (2016), Chapecoense (2018), Criciúma (2019) e, finalmente, o Náutico em 2020.

A ida de Vinicius ao Náutico é baseada unicamente na passagem de Gilson Kleina pelo clube, e um caso raro onde esse tipo indicação deu frutos (ainda que não imediatos e colhidos já com o trabalho de um outro treinador, Hélio dos Anjos). Voltaremos, em breve, à cronologia da performance de Vinicius. O fato é que se naquele momento em 2020 a direção de futebol do Náutico optasse por contratar qualquer outro treinador que não Kleina, seguramente Vinicius não teria jogado pela equipe.

Se no Náutico as contratações são feitas de forma aleatória, no Sampaio Corrêa, atual clube de Gabriel Poveda, há um processo de garimpagem que já há algum tempo beneficia o clube com retorno econômico e esportivo. Luiz Otávio, Jonas, Uillian Correia, Fernando Sobral e Wellington Rato são alguns dos atletas que o Sampaio antecipou ao mercado nos últimos 10 anos que figuram (ou figuraram recentemente) a prateleira de Série A, para não mencionar uma lista bem mais abrangente de nomes altamente competitivos para uma Série B (como Caio Dantas, artilheiro da divisão em 2020 pelo time maranhense).

A ida de Poveda ao Sampaio chama atenção por duas razões: a primeira é o mapeamento. Os números da carreira de Poveda já foram expostos e seguramente não foram esses os fundamentos do Sampaio na escolha pelo atleta. Podemos apenas especular quais tenham sido, mas a presença de Poveda no radar do Sampaio, ao menos na forma “tradicional” de se fazer futebol, era menos provável que na do Náutico.

Dois dos oito gols marcados na carreira de Gabriel Poveda entre 2018 e 2021 foram marcados sobre o alvirrubro (o primeiro, na semi-final da Série C de 2019, pelo Juventude, e o segundo, na 8ª rodada da Série B de 2020, pelo Brasil de Pelotas). Comparando o histórico contra os dois times, eis o recorte de Poveda até o fim de 2021:

  • vs. Sampaio Corrêa: 57 minutos jogados ao longo de dois jogos (uma derrota e um empate), com nenhum gol ou assistências
  • vs. Náutico: 183 minutos jogados ao longo de quatro jogos (três vitórias e uma derrota)

Poveda era um nome óbvio para o radar do Náutico (carrasco recente, com suas equipes saindo vitoriosas na maioria dos empates), mas não para o Sampaio (poucos jogos e minutos em exibições sem resultado de suas equipes). É possível dizer sem certeza, mas com fortes indícios que no Sampaio ele tenha sido produto de um processo de análise meticuloso e baseado em pesquisa de exibições contra outras equipes.

Não defendo, claro, que o Náutico o contratasse apenas por ter tido em Poveda um carrasco; levanto apenas a possibilidade preocupante de ele nunca sequer ter sido alvo de análise do clube. Mais uma vez temos uma linha tênue separando conceitos: ao enfrentar Poveda em quatro ocasiões e ser vazado pelo atacante em duas delas, o Náutico não deveria assumir meramente pelos gols marcados que havia ali potencial (os que estão familiarizados com minhas teses futeboleiras conhecem esse approach como “Método Bacardi”). Contudo, ao olhar os números de Poveda e constatar que apesar dos gols sobre o Náutico o atleta era bastante carente de gols marcados, o potencial de Poveda de se tornar um artilheiro não poderia ser descartado sem análise.

Passemos, então, ao segundo mérito do Sampaio Corrêa. Identificar e contratar Poveda não é tudo. A grande concentração de times sudestinos na carreira do atacante era um indicativo básico que seria necessária uma determinada adaptação ao clima e a logística de jogos existente no Nordeste.

Poveda marcou 4 gols em suas duas primeiras partidas na temporada, mas esteve longe de ser consistente nos primeiros meses de Sampaio. Entre 30 de janeiro e 30 de abril, foram 1055 minutos em campo (aproximadamente 1/3 da minutagem corrida até a presente data) e uma média de 1,67 gols/jogo, o que é, objetivamente, pouco acima de sua média da temporada, mas no escopo subjetivo, algo bem menos impressionante dado o baixo nível técnico vivido pelo Sampaio Corrêa no primeiro semestre: os 7 gols marcados por Poveda fora da Série B foram diante de equipes abaixo do patamar de Série B do Sampaio Corrêa: Altos e Floresta (Série C), Moto Club (Série D) e Cordino (sem divisão).

Olhando em retrospectiva, seria de se esperar que Poveda tivesse marcado muito mais gols nas competições regionais, ou, num viés contrário, qualquer um familiarizado com seu histórico no início da Série B jamais apostaria que o atacante passaria dos 10 tentos na Série B.

Um catalisador para os gols marcados foi, sem dúvidas, o crescimento do tempo médio de Poveda em campo. Até o último jogo antes do primeiro gol de Poveda na Série B, sua média de minutos em campo na temporada era de 55’. De lá para cá, a média é de 84’. O Sampaio apostou no crescimento de Poveda mesmo quando seus números indicavam um crescimento apenas moderado em relação ao histórico da carreira e, no escopo qualitativo, insuficiente para o sarrafo técnico da Série B.

Tal como Vinicius no Náutico (1 gol nos primeiros 1.161 minutos, 7 gols nos 1.161 minutos seguintes), a adaptação foi relevante para Poveda. Em diversos aspectos: ao clube, ao clima, ao modelo de jogo e às características individuais. No caso de Vinicius, o entrosamento individual com Jean Carlos nas cobranças de escanteio fechadas rendeu-lhe quatro gols (Botafogo, Vasco, CSA e Vitória) na Série B de 2021.

Foram 1822 minutos com Jean Carlos e Vinicius em campo até que o primeiro gol na dobradinha do escanteio no primeiro poste saísse, e apenas 1.018 minutos entre o primeiro e o quarto gol (uma densidade altíssima de gols marcados com a repetição da mesma movimentação num curto período, que culminou em forte atenção na bola aérea ofensiva alvirrubra; assim é o futebol, leva muito tempo para que vantagens competitivas sejam construídas e pouco tempo para que sejam percebidas. É por isso que trocas recorrentes de treinador são ofensores ao desenvolvimento: a longevidade de um técnico permite a identificação de potencialidades e o aperfeiçoamento executor. Na troca, todo o processo é reiniciado).

Eis o dilema do ovo e da galinha mencionado lá atrás: Poveda estava fadado a ter excelentes números em 2022 (onde quer que estivesse) ou essa ascensão se deve ao ambiente em que está inserido? Num rápido exercício de imaginação, consideremos o cenário em que Gabriel Poveda tivesse sido um dos doze atacantes contratados pelo Náutico em 2022, com a consideração prévia de que, tal como ocorreu no Sampaio, fosse necessário um período de adaptação ao clube e seu contexto.

Poveda teria conseguido performar números similares em meio à quatro troca de treinadores? Ou, mais importante, Poveda ainda estaria no Náutico? (dos doze atletas mencionados, quatro deixaram o clube, dois não jogam desde o mês de julho e só recentemente o prata-da-casa Julio, que começou a temporada chamando atenção, desbancou o veterano Kieza, que com 1388’ ao longo de 2022 tem apenas um gol marcado; o garoto Julio, com 375’ entre os profissionais, tem três).

Não me absterei de opinar. Minha avaliação é de que o desempenho e os números de Poveda não ocorreriam em muitos outros clubes além do Sampaio. O histórico recente da equipe com atacantes não é uma feliz coincidência e sim o produto de um clube ciente de que pode encontrar na ineficiência comum do mercado da bola uma relevante vantagem competitiva. Os clubes, em geral, tratam a procura por atacantes como a busca de uma agulha no palheiro.

A dificuldade reside em não saber distinguir o que é agulha e o que é palha. Assim, clubes sem tese de investimento no mercado (como o Náutico) acabam por trazem atacantes com diferentes características, para exercer diferentes funções em campo e em diferentes contextos, muitas vezes desalinhados da necessidade contextual do clube. Falta o entendimento de que o que estão procurando é por uma agulha altamente específica num imenso agulheiro, com diferentes tipos de agulhas, algumas mais novas e outras mais velhas (mas não necessariamente defasadas, caso de Ciel, hoje no Tombense e que no ano passado estava no Sampaio).

Na hipótese de procura por um atacante como Poveda, desprovido de números relevantes, mas ainda em idade tenra, é necessária uma avaliação sistêmica e seguramente ignorada pela maioria dos clubes. A enumeração dos fatores universais (pois há alguns específicos que irão variar de clube para clube, em acordo com a cultura da instituição e o contexto de momento) demandaria dobrar o tamanho corrente do texto, de forma que deixo aqui o voto de esperança que minhas reflexões se disseminem.

Como visto, como clubes pecam tanto pela falha em identificar nomes de potencial (quase sempre por ausência de método) quanto, e este talvez seja o principal vetor de performance, pela falta de entendimento de que o problema não é resolvido com a contratação e sim com a adaptação. A queima de dinheiro no mercado se baseia meramente em contratar jogadores como uma resposta da torcida, um agrado ao treinador ou uma terceirização infinita:

  • temos problemas e trazemos jogadores para resolvê-los;
  • esses jogadores não resolvem nossos problemas imediatamante;
  • trazemos mais jogadores para resolver os problemas que os outros não conseguiram.

A folha no ciclo vicioso é simples: os clubes ignoram seus reais problemas e, mesmo quando os reconhecem, comumente o reconhecimento é tardio. O vai e vem de jogadores/treinadores já mudou as demandas de contexto e o jogador que serviria há 6 meses pode não servir mais (na maioria das etapas, sobretudo nos estágios avançados da temporada, a melhor conduta é não contratar, mas essa acaba por ser uma medida pouco midiática. Dirigentes não ganham microfone e nem relevância social acreditando em processos.

TELECAST – NÁUTICO 1 X 3 SAMPAIO CORRÊA – NORDESTE 45

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