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AnalistasRankingsRodolpho Moreira

Minúcias: ida à box

Foto: Reprodução/Internet
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Mônaco, 25 de Maio, 2008. Felipe Massa, o pole position, lidera a corrida por margem estreita até o início da sexta volta, seguido de perto por Kimi Räikkönen e por um jovem Lewis Hamilton. É nesta sexta das dezenove voltas que ocorre um evento potencialmente decisivo para a disputa: Hamilton bate numa barreira e um dos pneus traseiros é furado.

O Grande Prêmio realizado em Monte Carlo é, sabidamente, o circuito mais difícil (e portanto, prestigiado) da temporada de Fórmula 1. A pista, a menor em extensão de todos os GPs, é marcada por curvas acentuadas e estreita largura, configurando Mônaco como um circuito de ultrapassagens escassas. A batida de Hamilton era, portanto, praticamente uma sentença de derrota para o inglês e a McLaren. Quase treze anos depois, o piloto se consolidou como um dos maiores de toda a história, mas não é apenas ao seu talento que pode ser resumido o improvável sucesso obtido naquele GP: Hamilton foi o vencedor da corrida.

Há diferenças substanciais entre o futebol e a Fórmula 1, e as similaridades têm se reduzido ao ponto de ser difícil apontá-las sem um quê de pretensiosismo; assim, reduzirei essas comparações a duas características cruciais para o desenvolvimento deste texto.

  • O futebol e a Fórmula 1 diferem no processo de preparação para os desafios vindouros, pois no primeiro há de se contemplar as variáveis decorrentes de um grupo formado por, no mínimo, 25 atletas, enquanto na Fórmula 1 o desenvolvimento é pensado nas variáveis da pista que o piloto precisará enfrentar em um desempenho singular.
  • O futebol e a Fórmula 1 comungam da dependência de uma equipe técnica para concretização de objetivos.

Embora a similaridade destacada seja incontestável, mesmo nela há uma irrevogável diferenciação entre os esportes, pois as equipes técnicas das montadoras de Fórmula 1 possuem um caráter mais técnico e menos mutável do que as comissões dos clubes de futebol. Um chefe de operações alcança mais longevidade numa McLaren de que um executivo de futebol no São Paulo; um auxiliar técnico vinculado a um treinador com curto prazo de validade pode trabalhar em quatro diferentes clubes num único ano no futebol brasileiro, algo difícil de acontecer com um engenheiro incorporado à Mercedes. E o fato de o currículo desses engenheiros ser determinante para suas contratações certamente não é replicado no mercado de treinadores futebolístico, sobretudo o brasileiro.

Quando Hamilton, em terceiro lugar no circuito de Mônaco, furou o pneu traseiro e precisou se dirigir à box, a McLaren se viu numa situação que pode ser comparada ao time de futebol que, num confronto direto pelo título, se depara com um jogador a menos aos 15 minutos da etapa inicial. Os vocábulos são propositais: utilizo “viu” para a McLaren e “depara” no exercício de imaginação pois, no caso da montadora, aquele era um cenário contemplado antes da corrida acontecer, enquanto na preparação de uma partida de futebol dificilmente há o estabelecimento de estratégias para cenários improváveis (mas não imprevisíveis) tais como uma expulsão ou lesão precoce.

Passado pouco tempo após o furo de seu pneu, Hamilton recebeu instruções sucintas e precisas do que fazer naquele cenário:

“Lewis, vais à box. Vais mudar a direção, o interruptor de arranque, assegura-te o que fazes – vais receber pneus novos e meter gasolina”.

O comunicado era composto por dois tipos de análises. Uma anterior a corrida, realizada a partir de um modelo informático muito detalhado do circuito de do desempenho de todos os carros na corrida. […] permite-lhes simular todos os cenários possíveis e prever o resultado […] analisando todas as permutações possíveis de variáveis diferentes: cronometragem das paradas na box, número de paragens na box, conjuntos de pneus diferentes […]”, um sistema de apoio decisório que permite um plano determinado para cada cenário possível. Disse o ex-engenheiro de corrida da McLaren, Andy Latham:

“A última coisa que queremos é ter de tomar decisões difíceis em plena corrida”.

O segundo tipo de análise é o realizado já com a corrida iniciada, onde há uma continuidade das simulações de corrida a “uma frequência de dezenas de milhares de simulações por volta”. Dessa forma, as instruções dadas a Lewis Hamilton eram baseadas na consideração prévia do cenário vivido e de uma simulação realizada em minutos que permitiu saber a posição em que Hamilton estaria na corrida no momento em que regressasse à corrida. Resumidamente, o plano consistia numa consideração abrangente do contexto:

– A variável meteorológica, pois chovia no início do circuito mas a previsão climática indicava que a pista estaria seca ainda durante a corrida; dessa forma, não houve reposição do pneu furado, mas sim uma troca do conjunto de pneus, este adaptado para uma pista seca;

– A necessidade de recuperar o tempo perdido, o que obrigava a McLaren a fazer daquela parada obrigatória a única em toda a disputa. Por isso, o carro foi munido com combustível suficiente para que a corrida fosse concluída sem necessidade de reabastecimento.

“A paragem na box durou nove segundos. Quando Hamilton saiu da pit lane, soube quais os condutores que estavam atrás de si e à sua frente. Mais nada. […] Com mais combustível no depósito que os seus rivais e um conjunto de pneus bem adaptado às condições quando o asfalto secasse, Hamilton acabou por ganhar a corrida”.

Embora toda a construção do plano que levou Hamilton a esta vitória decisiva no emocionante título conquistado na última volta da corrida derradeira na temporada 2008, toda a narrativa feita visa destacar o fato de que a McLaren, naquele momento, considerava as idas à box como uma oportunidade de vencer corridas. Algo que se tornou consensual na Fórmula 1 desde então.

Futebolisticamente falando, ainda que haja uma cultura ascendente de análise de desempenho, tal nível de detalhes é ainda utópico. Não por falta de tecnologia ou profissionais capacitados ou em capacitação para coletar e tratar dados, e sim por uma resistência ao uso de recursos e ferramentas que ofendem o “sempre foi feito assim” way of life. E se o jogo, através da análise de desempenho, pode ser beneficiado por dados e simulações, o mercado de transferências não é diferente.

Considero os finais de temporada numa condição similar às idas à box da Fórmula 1. É o momento de executar algo que, ao menos em tese, já deveria estar planejado. Quando o piloto chega à box em seu carro as equipes de apoio já sabem o que fazer, de forma que apenas 9 segundos foram dispendidos para fazer um abastecimento completo do carro da McLaren simultaneamente à uma troca de todos os quatro pneus.

Na temporada 2020 do futebol pernambucano, os três principais clubes do estado se viram em cenários de extrema imprevisibilidade no que diz respeito ao planejamento para 2021. Na Série A, o Sport ainda enfrenta uma reta final para saber se permanecerá na primeira divisão ou regressará à segunda; o Náutico viveu até a penúltima rodada da Série B a possibilidade do rebaixamento à Série C, enquanto o Santa Cruz chegou até a última rodada da C com o sonho vivo do acesso à B.

É difícil pensar que, em qualquer um dos casos listados, houvesse um planejamento construído para as ramificações dos destinos de cada instituição. Traçar o planejamento para a temporada vindoura apenas após a conclusão da temporada vigente é uma prática comum no futebol nacional e que acarreta em problemas decorrentes, em sua maioria, do fator emocional envolvido. É difícil lembrar das avaliações realizadas antes do destino selado uma vez selado o destino.

Tomemos como exemplo o Náutico de 2019. O acesso à Série B foi conquistado em setembro, e o título da divisão confirmado em outubro. Se feito em agosto um planejamento baseado na perspectiva de acesso, considerando o gap técnico entre a Série B e a C e a necessidade de readequação do plantel, dificilmente nomes como Fernando Lombardi e Josa teriam os nomes postos numa lista de renovação; algo que aconteceu com a pauta sendo tomada apenas após a ascensão nacional, oriunda de um jogo capaz de subverter as convicções, com uma disputa de pênaltis e invasão maciça do campo após a conclusão da série penal. O componente emocional passou a ser uma variável do processo, e o peso de certos atletas no vestiário, aliado a um sentimento de gratidão, pesou na manutenção de atletas cujo desnível era percebido mesmo para os não versados nas minúcias do esporte bretão.

Evidentemente, o desempenho na reta final da Série C deveria ser considerado. Nomes como Matheus Carvalho e Álvaro praticamente se definiram naquela etapa; mas esta consideração não deveria ser feita durante um debate iniciado após a definição do 2020 alvirrubro, e sim somada a um plano alicerçado antes da ciência do destino da equipe na Série C.

Vivendo indefinição afim, o Sport joga as últimas rodadas da Série A podendo alcançar uma permanência heroica ou viver um rebaixamento previsível. Atentem: da mesma forma que a manutenção na Série A não deveria ser desconsiderada numa ramificação de planejamento desenhada meses atrás, quando o Sport era considerado o principal candidato ao descenso, a expectativa pela permanência criada pela surpreendente campanha dos comandados de Jair Ventura não deve eliminar a necessidade de haver um plano para a possibilidade de queda.

Se na Fórmula 1 as idas à box são vistas como uma oportunidade, similarmente, no futebol, as janelas de transferências deveriam ser vistas como um recurso de crescimento. Esportivo e econômico. Algo que ganha ainda mais importância quando consideramos a ineficiência do mercado: como um todo, se contrata mal no Brasil. Os clubes são desprovidos de uma tese de investimentos, os treinadores, com vida curta, são os principais norteadores do processo, legando aos seus sucessores elencos com características que fogem ao modelo de jogo seguinte justamente pela falta de uma identidade de jogo dos times… E todo esse contexto é construído com tempo: tradicionalmente, a temporada de futebol brasileira é encerrada no início de dezembro e reiniciada em meados de janeiro; a falha mercadológica é comum aos clubes brasileiros mesmo com tempo de sobra para executar planejamentos. Em 2021, a ausência desse tempo em decorrência da necessidade de equalização do calendário minará os clubes do tempo que utilizam para definir algo que já deveria estar pronto antes mesmo de encerrada a temporada: o tempo.

A Série A caminha para uma indefinição de seus panoramas até a rodada derradeira. Dificilmente o campeão, as vagas da Libertadores e os rebaixados serão definidos antes da 38ª jornada; assim, todo o funcionamento do “primeiro lote de contratações” mercado dependerá da movimentação dos 20 clubes que ainda disputam a primeira divisão após definidas suas vidas, algo que acontecerá num intervalo de poucos antes do início oficial de 2021. Nesta rápida ida à box, seu clube tem um plano? Os engenheiros da McLaren não queriam se ver na necessidade de tomar decisões difíceis com a corrida em curso. Os dirigentes do seu time possuem recursos para tomar decisões cruciais num mercado caótico?

Bibliografia:

Todos os trechos destacados são traduções do livro “Game Changers“, escrito por João Medeiros.

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