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Minúcias: notas sobre cultura

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O futebol brasileiro vem nos últimos meses atropelando agendas que sempre foram importantes e há pelo menos 10 anos tornaram-se urgentes, tais como a revisão de seu calendário. Tal atropelo vem para acelerar o debate, entendimento e decisões inerentes às Sociedades Anônimas do Futebol, uma pauta naturalmente importante mas que não necessariamente é urgente.

Um gargalo generalizado nos clubes brasileiros parece ser a pressa em discutir o modelo de SAF sem analisar a aderência do modelo às suas próprias culturas. A formação dessas culturas num modus operandi amador e a recusa em revisá-las faz com que dirigentes ajam de forma que possivelmente contraria suas vontades pessoais, mas o clichê “a cultura come a estratégia no café da manhã” não é clichê a toa.

O Náutico é um dos clubes que recentemente anunciou estar envidando esforços para uma possível transição para o modelo de SAF. Esse pode ser um caminho viável, mas julgo pouco prudente pensar em migrar para um modelo ainda incipiente quando o modelo em voga há décadas jamais foi repensado. As ações do clube demonstram inaptidão para executar um planejamento de uma temporada, tornando difícil assimilar que haja capacidade estratégica e executora para planejar uma mudança no modelo de gestão do clube sem ônus.

A recente saída de Hélio dos Anjos é um exemplo suficiente para entender as barreiras. Não apenas pelos episódios intensos que culminaram no fim da passagem do treinador, mas (principalmente) por todo o processo iniciado quando da sua volta após a precoce saída de Marcelo Chamusca.

A essa altura, todos sabem que após o fracasso de Chamusca em reverter a queda brusca de performance do Náutico na Série B 2021 (iniciada ainda sob o comando de Hélio), o Náutico trouxe de volta o técnico campeão estadual com um contrato firmado até o fim de 2022. Um contrato de 15 meses para um treinador que mesmo tendo protagonizado uma reação salvadora na Série B de 2020 e conquistado o título Pernambucano de 2021 não conseguiu completar 12 meses no cargo.

O Náutico assumiu algumas apostas ao realizar um contrato tão esticado com o treinador:

  • Que o núcleo da diretoria que o contratou permaneceria à frente do clube. Essa era uma assumpção bastante segura, mesmo com a eleição marcada para acontecer na instituição em dezembro, pois dificilmente a chapa que viria a ser capitaneada por Diógenes Braga perderia o pleito.
  • Que o desgaste da primeira saída (marcada por uma sequência de cinco derrotas consecutivas, confusões no vestiário e um processo acionado pela ausência de pagamentos acordados) não iria interferir na “segunda etapa” do trabalho. Essa era uma assumpção inocente, considerando o hiato breve entre o fim de uma passagem e o início da outra, a pressão pela busca por um acesso praticamente perdido e a potencialização desses aspectos pelo pleito vindouro.
  • Que o restante da Série B não traria nova carga de desgaste ao trabalho, ou que esta, se existente, seria mínima. Outra hipótese inocente, pois somente uma (improvável) campanha que culminasse no acesso que até a 14ª rodada da competição era iminente conseguiria aparar arestas entre torcida-treinador-diretoria.

Sob esse viés, já é possível considerar o prazo contratual estabelecido excessivo. Mas há um dado estatístico-cultural ainda mais crucial para diagnosticar o tamanho do erro. A última vez que o Náutico conseguiu iniciar e encerrar uma temporada com o mesmo treinador, sem trocas no percurso, foi em 2004, com Zé Teodoro. Diferentemente de Hélio, Zé era novato, chegou ao clube sem qualquer desgaste anterior acumulado e isso fez diferença para resistir ao impulso de troca nos momentos de pressão naquela temporada.

É aqui que fica nítido o peso da cultura. Exceto pela configuração de início de trabalho (um Zé Teodoro “novato” em 2004, um Hélio dos Anjos já desgastado no início de 2022), se formos comparar o mesmo Zé em 2004 com o Hélio de 2021, podemos atestar o quão fora da curva foi a permanência ininterrupta de Zé Teodoro há 18 anos. O Hélio de 2021 tinha créditos suficientes para quebrar o “tabu”: permanência heroica na Série B 2020, um título estadual marcado por quebras de jejuns cinquentenárias e o melhor início de Série B na história dos pontos corridos. Claro, neste último ponto, quanto mais alto a queda, maior o tombo. Mas se o Hélio dos Anjos de 2021, com um saldo extremamente positivo carregado, não obteve sucesso em iniciar e concluir o trabalho em 12 meses, o que credenciaria o Hélio já com ressalvas do último trimestre de 2021 a permanecer por 15?

Naturalmente, não estou defendendo a permanência-pela-permanência de um técnico apenas para iniciar-concluir a temporada. Estou apenas atestando que, culturalmente, é praticamente impossível para um técnico obter tal façanha, e, novamente, preciso citar uma série de fatores para tal:

  • Em defesa da atual direção do Náutico, a tolerância com o trabalho de treinadores é bem maior nesta gestão que em qualquer uma pelo menos nos últimos 30 anos. Apesar de não terem conseguido iniciar-concluir uma temporada, é de Gilmar dal Pozzo e Marcio Goiano o recorde de permanência (considerando todo o período a frente do clube, sem interrupção) neste século, com passagens ainda mais duradouras que o próprio Zé Teodoro. Mas mesmo sob uma diretriz mais paciente, não houve sucesso em evitar a demissão de nenhum dos treinadores que iniciaram temporada no clube desde o início da gestão Edno Melo. Roberto Fernandes, responsável pela quebra de um jejum de títulos de 14 anos (o maior da história do clube) foi demitido menos de um mês após conquistar a taça do Pernambucano 2018; Hélio dos Anjos, que sem dúvidas foi o treinador com menos margem de questionamento e mais sucesso obtido ao iniciar uma temporada no clube, também não acabou saindo (ainda que por opção própria).
  • Não existe trabalho preventivo no clube para gerenciamento de crise. Os episódios vexatórios envolvendo torcida e atletas nas derrotas nos Aflitos contra Confiança, em 2021, e Retrô, em 2022, demonstram a dificuldade de atuar preventivamente diante de problemas antigos e recorrentes.
  • Mesmo em cenários de preferência por continuidade, o clube segue exposto ao interesse do mercado. Em todas as vezes em que o trabalho de início de temporada marcou uma boa continuidade de um projeto oriundo da temporada anterior, o treinador responsável acabou cooptado. Aconteceu com Roberto Fernandes, em 2008; com Alexandre Gallo, em 2013; e poderia ter acontecido com o próprio Hélio dos Anjos, que, sabe-se, estava verbalmente acertado com o Sport horas após deixar o Náutico ao fim do 1º turno da Série B.

Sendo assim, qualquer contrato com uma duração de 15 meses precisa ser considerado irresponsável. Isso não significa, contudo, que o clube não possa/deva trabalhar pensando no longo prazo. O uso recorrente (e leviano) da palavra “planejamento” motivou muitos dirigentes a assinarem contratos de longo prazo com atletas e jogadores como se, em essência, isso significasse um trabalho consolidado de longo prazo. A dificuldade de entender as implicações de longo prazo de tais contratos e a falta de percepção para entender quando os fazer é comum no futebol local. Para o Náutico, ao menos no quesito treinador, esse momento não chegou. Trabalhar com longo prazo é possível e significa muito mais ter uma tese definida para a contratação de treinadores do que firmar um contrato que dificilmente será cumprido com um deles. Por mais que soe pessimista, o atual patamar cultural do clube demanda que no ato de contratação de um treinador, potenciais substitutos já sejam mapeados.

Por julgar que não é pertinente para o objetivo do texto, não me esmiuçarei na análise do substituto de Hélio dos Anjos, Felipe Conceição. Me limito a dizer que achei uma reposição interessante e a desejar sucesso e vida longa no clube; como tal longevidade é improvável, encerro o texto com mais algumas reflexões:

  • Quais foram os fatores que desgastaram o trabalho de Hélio dos Anjos que podem ser trabalhados pela direção do clube para não desgastarem Felipe Conceição?
  • Quais formas há de blindar o processo decisório da direção na continuidade de Felipe Conceição da opinião da torcida? (Seguramente, o momento de troca chegará, mas é importante, quando ocorrer, ter certeza de que é a melhor alternativa, evitando um vai e vem tal como ocorreu com Hélio)
  • Os objetivos determinados pelo clube à Felipe Conceição são condizentes com o material humano que o clube oferece ao treinador?
  • Há hoje uma gestão preventiva da potencial perda de atletas por lesão/transferência ao longo da temporada? Em outras palavras: caso Kieza torne a se lesionar, qual atacante o Náutico buscará no mercado? Se Rhaldney ou Jean Carlos forem vendidos, quais as alternativas mapeadas pelo clube para substituí-los?

A migração para o modelo de SAF sem a decisão interna de profissionalização da estrutura de futebol do clube é apenas um disfarce, uma maquiagem de um amadorismo institucional para um amadorismo travestido. Antes de pensar em SAF, o Náutico (e, naturalmente, diversos outros clubes) precisa pensar seu modo de fazer futebol.

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