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Danilo Fernandes, goleiro do Bahia, vítima de atentado Danilo Fernandes, goleiro do Bahia, vítima de atentado

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Após atentado, Danilo Fernandes justiça, critica atos de “bandidos” e garante motivação no Bahia

Reprodução/TV Bahêa

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Depois de ser o atleta mais atingido pelo atentado contra o ônibus do Bahia, na última quinta-feira, o goleiro Danilo Fernandes concedeu uma entrevista coletiva nesta segunda. Ainda com machucados visíveis no rosto e com um procedimento oftalmológico marcado para esta sexta-feira, o goleiro ainda não sabe quando poderá voltar aos gramados, mas agradeceu por estar vivo e garantiu motivação para seguir no Bahia.

O arqueiro também foi incisivo nas críticas aos responsáveis pelo atentado, que chamou de “bandidos” e garantiu ter pena deles e esperar que a justiça seja feita, acreditando que as autoridades responsáveis vão trabalhar junto ao Bahia para combater esse tipo de violência. Isso apesar de relatar um tipo de decepção ao ver o atentado como prova de que algo deu errado no ser humano.

Em pouco mais de 20 minutos de fala, Danilo Fernandes respondeu a 14 perguntas, sempre reforçando que está bem no quesito psicológico e que segue motivado continuar atuando. Nisso, inclusive, o goleiro garantiu que sequer pensou em deixar o Bahia. “Não me passou pela cabeça em momento nenhum. Estou bem feliz aqui”, disse, afirmando estar adaptado ao Bahia e a Salvador.

Agora, o jogador terá uma pequena cirurgia no olho antes de retomar os trabalhos no Bahia. Assim, ele também explicou como está sua visão no momento. “Nenhum vidro cortou o olho, mas acho que, devido ao trauma nessa região, passei por um oftalmologista e foi constatado um sangramento (…) estou me recuperando, mas o olho esquerdo, eu sinto que tem umas fumacinhas, fica meio desfocado. Mas a médica disse que é até por contra do sangramento, e isso, o corpo vai absorver”.

O atentado

Sobre o momento do ataque, o goleiro do Bahia disse que demorou a perceber o que estava acontecendo. “Eu estava de fone de ouvido, nem percebi o que estava acontecendo do lado de fora e simplesmente senti como se fosse uma porrada vindo no meu rosto. Eu ouvi alguém gritando ‘foi uma bomba que jogaram dentro do ônibus’ e, quando eu me dei por conta, estava sangrando, pingando um monte de sangue no meu corpo”.

Assim, ele disse que relatou que ficou assustado depois do atentado, mas que está com o psicológico sob controle. “Logo após o incidente, eu não conseguia dormir, não vinha sono, eu tive que pedir medicamento para a enfermeira, mas assim que estava caindo no sono, teve algum barulho no corredor e eu me assustei. Isso realmente aconteceu. Mas eu acho que Deus é tão bom comigo que eu tenho uma cabeça que eu acho que é muito boa. Não acredito que vá existir algum estresse pós-traumático (…) E eu estou bem, tranquilo, graças a Deus estou vivo”.

Sequência de agressões no futebol

Na última semana, o atentado ao ônibus do Bahia não foi o único caso de violência no futebol, com o ônibus Grêmio, a van do Náutico e o time do Paraná também sendo alvos de ataques. Danilo condenou essa situação.

“A paixão está sendo totalmente confundida com agressão e bandidos estão disfarçados como torcedores. Então, a preocupação não é só com o Danilo hoje, é com o atleta do Grêmio, com todos os envolvidos nessa semana muito complicada para o futebol brasileiro. Os jogadores do Náutico, os atletas do Paraná, que tiveram situações complicadas dentro de campo. Então, a situação, hoje, tem que ser a nível nacional’.

Ele ainda foi além, dizendo que esse tipo de comportamento não pode ser normalizado, vendo isso como uma atitude incoerente e isolada da postura da torcida do Bahia.

“Que a justiça seja feita, porque não é normal. Isso não pode ser tratado como uma coisa normal. Porque o pessoal invade CT, vem nos intimidar na rua, isso não é normal. Nenhum trabalhador sofre isso na rua, no seu serviço. Se ele atingiu a meta dele ou não, não chega um bandido no seu escritório, dentro de onde quer que seja e vai intimidá-lo. E por que com jogador tem que ser assim?”.

Por fim, Danilo ainda afirmou que vê essas ações como algo que deu errado no ser humano, relatando um sentimento de decepção.

“Ver que tem uma parte do ser humano que não evoluiu, que não sei se tem algumas frustrações dentro dele que acaba descontando em outras coisas, porque pode ser um vazio que ele tem nele que não é em um atleta de futebol que ele vai suprir. Ele não tem que suprir essa necessidade de alegria ou de tristeza e descontar em uma paixão de um esporte (…) chega a dar pena, dó dessas pessoas. Eles precisam evoluir, se tratar. São pessoas que, acredito eu, tem alguma doença. São pessoas doentes. E a gente acaba pagando o preço?”.

Leia a entrevista na íntegra

Como você está vendo o momento de agressões no futebol brasileiro?

“É uma das entrevistas mais difíceis da vida, principalmente falando de coisas que a gente não quer falar. A gente quer falar do que acontece dentro de campo. É uma situação chata. O futebol brasileiro, pentacampeão mundial, tem tudo para ser um dos mais bonitos do mundo, mas está virando notícia policial. Um momento em que o mundo vem passando por guerra, por adversidade, e a gente está vivendo isso em um ambiente que era para ser de alegria, que é para unir atletas, jogadores, torcidas, todos em um só objetivo: dar alegrias ao povo brasileiro”.

O que vocês, jogadores do Bahia, têm conversado sobre isso?

“A gente, jogador, se fala. A gente tenta ter uma posição, mas sabe o quanto é complicado, porque às vezes sai do nosso ponto de alcance. São medidas que têm que ser tomadas pelas autoridades e eu tenho certeza que eles vão fazer um bom trabalho e mostrar que o futebol brasileiro ainda tem jeito”.

O que passou na sua cabeça na hora do atentado?

“Estava conversando com os companheiros agora e eles relataram que eu demorei para manifestar que alguma coisa tivesse acontecido dentro do ônibus. A princípio, achavam que só tivesse acontecido as explosões, e, como eu estava de fone de ouvido, eu nem percebi o que estava acontecendo do lado de fora e simplesmente senti como se fosse uma porrada vindo no meu rosto, sem saber o que estava acontecendo. Eu ouvi alguém gritando ‘foi uma bomba que jogaram dentro do ônibus’ e, quando eu me dei por conta, estava sangrando, pingando um monte de sangue no meu corpo. Então, pediram para eu ir mais para frente, o Luizão, o Patrick, me chamaram mais para frente, para sair daquela zona de perigo. Até porque eu estava aéreo, não sabia o que estava acontecendo. Ficou estranho de entender o momento e tudo que aconteceu”.

Você se sente seguro em atuar pelo Bahia?

“Eu acho que hoje, no futebol brasileiro, não é só aqui no Bahia. A gente viu em Porto Alegre, Pernambuco, Paraná, no Engenhão teve caso de racismo, a final da Copinha. Hoje, em qualquer lugar do Brasil está complicado para jogar. A gente só quer fazer o nosso trabalho da melhor maneira possível e com a melhor segurança possível. Acredito que o clube, as pessoas competentes estão para nos ajudar e dar essa segurança total. Mas hoje, não é só no Bahia. No Brasil todo, a gente viu como está complicada essa situação. A paixão está sendo totalmente confundida com agressão e bandidos estão disfarçados como torcedores. Então, a preocupação não é só com o Danilo hoje, é com o atleta do Grêmio, com todos os envolvidos nessa semana muito complicada para o futebol brasileiro. Os jogadores do Náutico, os atletas do Paraná, que tiveram situações complicadas dentro de campo. Então, a situação, hoje, tem que ser a nível nacional, para que todos possam fazer seu trabalho da melhor maneira possível”.

Houve diagnóstico de reflexo psicológico?

“Na primeira noite, logo após o incidente, eu não conseguia dormir, não vinha sono, eu tive que pedir medicamento para a enfermeira, mas assim que estava caindo no sono, teve algum barulho no corredor e eu me assustei. Isso realmente aconteceu. Mas eu acho que Deus é tão bom comigo que eu tenho uma cabeça que eu acho que é muito boa. Não acredito que vá existir algum estresse pós-traumático. Eu sou um cara bem tranquilo, minha esposa até fica perguntando ‘você está bem? Você está bem? Você está bem?’. E eu estou bem, tranquilo, graças a Deus estou vivo”.

“São cicatrizes que vão ficar para o resto da vida. São marcas que a gente não são como a gente gostaria, porque uma coisa é se machucar dentro de campo, outra é ser ferido, não sei se intencionalmente. E quase que poderia ter sido uma coisa muito pior, uma tragédia pior, principalmente pelo corte no pescoço que eu tive. Esse, sim, foi preocupante, fundo. O médico até falou que poderia ter pego em uma veia um pouco mais complicada no pescoço. Ele falou que até a barba ajudou um pouquinho a proteger. Às vezes, tirar um pouco do impacto, porque ele falou que tinha muito vidro, muito cabelo da barba dentro, o corte foi bem profundo. Mas eu tenho a cabeça tranquila em relação a isso, tenho suporte muito grande da minha família, de todo mundo do clube, e tenho certeza que eu vou estar bem, recuperado, nas próximas semanas”.

Como está sua visão?

“Teve o trauma, todo mundo pode ver, próximo ao olho. Graças a Deus, nenhum vidro cortou o olho, mas acho que, devido ao trauma nessa região, passei por um oftalmologista e foi constatado um sangramento, tem alguns termos técnicos que eu não sei falar, mas deu aquela chacoalhada e isso causa sangramento, tem uma retração da retina. Hoje, estou me recuperando, mas o olho esquerdo, eu sinto que tem umas fumacinhas, fica meio desfocado. Mas a médica disse que é até por contra do sangramento, e isso, o corpo vai absorver. Então, nós vamos fazer um procedimento bem simples na sexta-feira e eu tenho certeza que vou recuperar 100%”.

Costuma fazer acompanhamento oftalmológico?

“Eu faço anualmente, até porque eu sou goleiro, preciso estar bem das vistas. Então, eu faço esse acompanhamento, sempre uso as lentes de contato para jogar, nunca tive problema nenhum. Nunca foi questionado algum problema por parte de algum médico que eu tenha passado. Fiz neste ano também o meu exame de rotina, como nos anos anteriores também sempre venho fazendo e nunca tive problema nenhum”.

Qual é o seu sentimento?

“Tem coisa que eu ainda não consigo assimilar. Não sei. Por mais que a cabeça esteja boa, tem coisa que é o dia a dia, o tempo que vai dizer o que realmente vai acontecer. O meu sentimento, hoje, é de gratidão por poder estar vivo. De agradecer a Deus pelo livramento que eu passei, porque tudo que eu passei poderia ser pior e, hoje, eu poderia não estar aqui para conceder essa entrevista. Então, o sentimento é de gratidão, de poder estar vivo, bem, podendo rever meus companheiros, estar no ambiente que eu gosto de estar. O futuro não me preocupa, sou um cara bem tranquilo, consciente, eu estou bem”.

Existe previsão para voltar a jogar pelo Bahia?

“Eu não sei. Vou fazer esse procedimento na sexta-feira, tenho alguns pontos no corpo e tem que esperar a cicatrização, até para não ter nenhum problema. Então, acredito, não sei, eu possa estar fazendo alguma coisa na academia. Vou pressionar o pessoal para fazer alguma coisa, porque a gente não consegue ficar parado. Eu quero voltar o quanto antes, mas, primeiro, eu quero me recuperar, estar bem com o meu corpo, 100%. E aí voltar o mais rápido possível para o meu ambiente de trabalho”.

Pensou em deixar o Bahia?

“Não me passou pela cabeça em momento nenhum. Estou bem feliz aqui. Como eu já disse anteriormente, eu e minha família estamos bem adaptados à cidade, apaixonados pelo clube e por tudo que envolve o Esporte Clube Bahia, então, em momento algum passou pela minha cabeça”.

Como foram os dias de recuperação com a família?

“O lado bom foi esse, poder estar perto deles. A gente tem que pensar positivo. Hoje, eu estou do lado deles, mas poderia não estar. Então, é isso que nos dá forças, que faz com que a gente acredite em um mundo melhor, vendo os meus filhos cresceram. Eles ficaram preocupados quando eu cheguei em casa, ali, olhando os meus olhos, mas, enfim. É um momento que eu vou ter para ficar com ele e recarregar as energias para voltar ainda mais forte”.

Quais medidas devem ser adotadas para combater essa violência?

“Essa questão de violência, têm pessoas mais competentes que os atletas para cuidar. A gente acredita muito nas autoridades, polícia, ministérios, todo mundo que está envolvido por trás disso, buscando justiça. Tem coisa que, às vezes, foge do nosso alcance, a gente, claro, fica indignado. O atletas, todos, ficam indignados. Recebi muita mensagem de apoio, de carinho. O professor me ligou, o presidente, o vice-presidente, o pessoal foi no hospital me ver, o professor Tite me mandou uma mensagem de solidariedade, muita gente, muitos treinadores. Enfim, não vou falar de todos porque posso ser injusto com alguns. O momento é de se apegar a isso. Essa questão extracampo, a gente deixa para as autoridades, o pessoal competente tomar conta disso”.

“E que a justiça seja feita, porque não é normal. Isso não pode ser tratado como uma coisa normal. Porque o pessoal invade CT, vem nos intimidar na rua, isso não é normal. Nenhum trabalhador sofre isso na rua, no seu serviço. Se ele atingiu a meta dele ou não, não chega um bandido no seu escritório, dentro de onde quer que seja e vai intimidá-lo. E por que com jogador tem que ser assim? A gente não entra em campo para perder, para fazer gracinha, a gente entra em busca do nosso melhor. Ali também tem 11 adversários querendo ganhar o jogo; no fim do campeonato, só um time vai ser campeão; e agora quer dizer que nós somos vagabundos, que entramos no campeonato para perder?”

“Então, nós precisamos de mais respeito, precisa de segurança para poder fazer o nosso trabalho. A gente não entra em campo para fazer palhaçada, perder o jogo de propósito, tem coisa que não acontece do jeito que a gente quer. Acredito eu que, na vida desses bandidos também tem coisa que acontece como eles não querem . E, por isso, outra pessoa pode chegar lá e agredí-los, intimidá-los, tentar matá-los? Não é assim que funcionam as coisas. a gente tem que ser bem consciente de que isso aqui é futebol, é um jogo que vai ter vencedor, vai ter perdedor. Vai ter alegria, vai ter tristeza, mas não pode ser uma tristeza como está sendo agora, com agressões, com tentativa de homicídio. Perdeu? Perdeu no campo, que fique ali dentro. Ganhou? Ganhou no campo, vamos comemorar, isso é legal. É isso que a gente pede, que a justiça seja feita e que a gente possa ter um ambiente saudável para trabalhar e fazer o nosso melhor”.

O que dói mais, o físico ou o psicológico?

“O que me dói é ver que uma parte do ser humano deu errado. É isso que me dói. A parte física e mental, a gente cuida, tem o dia a dia para sustentar isso, tem as pessoas certas que nos dão suporte. Mas tem uma parte do seu humano que deu errado. Não é possível, isso não pode ser normal, não pode. Volto a repetir, a gente só quer fazer o nosso melhor, a gente quer trabalhar, a gente tem família para sustentar. Então, é isso que me dói. Ver que tem uma parte do ser humano que não evoluiu, que não sei se tem algumas frustrações dentro dele que acaba descontando em outras coisas, porque pode ser um vazio que ele tem nele que não é em um atleta de futebol que ele vai suprir. Ele não tem que suprir essa necessidade de alegria ou de tristeza e descontar em uma paixão de um esporte, onde são pessoas, trabalhadores que buscam fazer o seu melhor. E, às vezes, esse ser humano desconta uma falta de amor próprio em pessoas que não tem nada a ver com o sentimento deles”.

“Então, chega a dar pena, dó dessas pessoas. Eles precisam evoluir, se tratar. São pessoas que, acredito eu, tem alguma doença. São pessoas doentes. E a gente acaba pagando o preço? Não pode ser assim. Então, que tenha piedade dessas pessoas, torço que encontrem os caminho deles, que seja, um caminho de luz, porque a gente quer todo mundo vivendo em harmonia, em um mundo ideal, não no mundo real. Um mundo ideal no qual todo mundo tem compaixão um pelo outro, e hoje está faltando isso no seu humano”.

Como está sua motivação para jogar no Bahia?

“Minha motivação é poder fazer o que eu mais amo, e isso não vai ser um, dois, sei lá quantos vândalos que se dizem torcedores (que vão mudar). E não são, porque o torcedor jamais ia fazer isso. O verdadeiro torcedor vai no estádio para apoiar, vai para xingar, porque isso faz parte do futebol, é a paixão que nos move. Porque, às vezes, as coisas não saem do jeito que a gente quer e eles ficam nervosos. Do mesmo jeito que eles estão lá, xingando, a gente também se xinga, também se cobra. Então, a minha motivação é poder fazer o meu melhor sempre. Poder estar com a minha família, com os meus companheiros. é isso que me dá forças para pode vir aqui no dia a dia, chegar no dia do jogo e fazer o meu melhor, apresentar um espetáculo legal. Às vezes não vamos conseguir vencer, outras vamos. Então, a motivação é poder estar perto da minha família, saudável, para poder fazer o que eu mais amo”.

Alguma mensagem para o torcedor do Bahia?

“Eu gostaria de agradecer às inúmeras mensagens de carinho e respeito que eu venho recebendo. O verdadeiro torcedor, aquele que ama o clube, que está junto da gente, eu gostaria de agradecer. Estou me recuperando e quero, o quanto antes, estar recuperado para poder estar fazendo o que eu gosto, honrando essa camisa pesada, onde a cobrança é grande. Pode ter certeza que a nossa cobrança interna é muito maior que qualquer outra. A minha cobrança é muito maior. Sempre que puder, eu vou honrar essa camisa, que é campeã nacional, muito bonita, com uma história muito linda, e eu farei de tudo para dar alegrias ao verdadeiro torcedor, que está ao nosso lado, que está nos apoiando e que a gente precisa ainda mais de apoio neste ano. Vai ser um ano complicado, não começou do jeito que a gente gostaria, mas o final vai ser do jeito que a gente quer, no nosso devido lugar. E, se Deus quiser, eu vou estar lá, junto aos meus companheiros, com todos aqui, comemorando o nosso objetivo maior que é estar na Série A novamente”.

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